FÓLIO 2026 | “O principal medo de um editor é estar a passar-lhe pelas mãos uma obra-prima e não perceber” – Zeferino Coelho, homenageado com o Galardão José Pinho
Zeferino Coelho, editor da Caminho, confessou, este domingo, 18, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que “o principal medo de um editor é estar a passar-lhe pelas mãos uma obra-prima e não perceber”. O editor foi o primeiro homenageado do Município de Óbidos com o Galardão José Pinho, antigo administrador da Ler Devagar e fundador do FÓLIO. Rodeado de autores que publicou ao longo de mais de 50 anos, de editores e de amigos, Zeferino Coelho, 81 anos, continua a trabalhar para a Caminho, editora adquirida pela Leya.
“Aconteceu várias vezes, e é normal”, assumiu o editor da Caminho. “As ideias feitas são muito úteis, mas, por vezes, são fatais”, observou, em alusão ao facto de, por vezes, se desistir da leitura da prova ao fim de 10 páginas.
Em resposta às palavras elogiosas de diversos escritores portugueses e lusófonos que publicou, Zeferino Coelho fez comentários individuais sobre a sua personalidade ou as suas obras. “Estou a passar por um período da vida em que olho mais para trás do que para a frente. Vou fazer muito mais coisas, mas o que fiz está feito”.
O escritor moçambicano Mia Couto não pôde estar presente, mas enviou uma mensagem em que destacou o facto de Zeferino Coelho estar “atento aos outros”, e de ter aberto a porta a escritores de cinco países africanos. “Fez tudo isso por amor à literatura”, afirmou. “Mas foi mais longe. Ajudou a que fossemos publicados nos nossos países”, recordou, dando “plena autonomia editorial aos proprietários angolanos e moçambicanos”. Referiu ainda que os três autores moçambicanos, lançados pelo editor da Caminha, receberam o Prémio Camões.
Após publicarem 29 livros juntos, que venderam mais de 62 mil exemplares, o escritor Daniel Sampaio caracterizou Zeferino Coelho como um homem “corajoso”, e garantiu que a relação de confiança se transformou em amizade. “O Zeferino tem um percurso político e cívico. Foi um homem de esquerda durante a ditadura, quando essa posição implicava riscos”, lembrou.
“A literatura não é apenas um objeto comercial. É uma forma de conhecimento, de confronto com o mundo, e de liberdade”, sublinhou Daniel Sampaio. “Editar implica descobrir, ler, acompanhar e Zeferino não se limita a ler o manuscrito. Lê, volta a ler, discute passagens”, contou. “Ao olhar para os 29 livros, vejo a história de uma amizade fraterna e estimulante, o rigor com que leu e acompanhou os meus livros. Tive o privilégio de contar com um grande editor e um grande amigo”, acrescentou.
Inesgotável sabedoria
Ana Rita Bessa, administradora executiva da Leya, disse ser uma “testemunha privilegiada do seu sentido de dever, sentido de humor e inesgotável sabedoria”. Retratado como um homem que chega à Leya sempre de jornal [Público] debaixo do braço, por vezes de boina basca, e sempre de porta aberta, Zeferino Coelho foi apresentado como “um editor que organiza a memória”.
Salientou ainda os “50 anos de uma vida dedicada à arte de criar e de ter pensamento próprio”, mais de dois mil livros editados e milhares de leitores.
“Em 1991, durante um almoço oferecido aos autores, em Bruxelas, um comissário europeu disse: ‘A Caminho acabou’, mas a profecia não se concretizou”, salientou o escritor Paulo Teixeira. Apesar de considerar que a história da Caminho não foi linear, assegurou que o editor nunca lhe deu a conhecer as dificuldades. “E, nestes 40 anos, houve uma coisa que não mudou: o Zeferino continuou a fazer questão de nos vir esperar à porta, como se fossemos estrelas da TV e da rádio”.
“Ao atribuir pela primeira vez este prémio, começamos também a escrever a sua história. E o nome de Zeferino Coelho dá a esse início uma referência de exigência, de seriedade e de compromisso com a literatura”, afirmou Filipe Daniel, presidente da Câmara de Óbidos. “Um editor lê com atenção, reconhece uma voz, acompanha uma obra. Precisa de critério para escolher e de coragem para sustentar escolhas, cujo valor nem sempre é imediatamente reconhecido”, referiu.
O autarca explicou que é esse trabalho, tantas vezes discreto, que o Município quer tornar visível e agradecer. “O percurso de Zeferino Coelho mostra-nos o quanto um editor pode acrescentar à cultura de um país”, justificou, ao formar ainda novos leitores, através da coleção “Uma Aventura”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. “Este prémio aproxima dois percursos com um ponto de encontro muito claro. José Pinho ajudou a criar lugares e encontros para os livros. Zeferino Coelho dedicou a sua vida a cuidar dos livros e de quem os escreve”, sintetizou.
Alberto Santos, secretário de Estado da Cultura, afirmou que “a maior parte do trabalho de um editor se faz longe dos olhares dos leitores”, quando lê um autor desconhecido, analisa a possibilidade de o editar, faz correções, escolhe as capas e os títulos. O ex-presidente da Câmara de Penafiel, de onde Zeferino Coelho é natural, recordou duas histórias do editor: quando esperava pela biblioteca itinerante, de 15 em 15 dias, muitas vezes à chuva, e quando tentou ler “Os Lusíadas”, quando era pequeno, e perguntou ao avô: “Porque é que este homem não escreve de maneira a que eu perceba?”.
“Naquele rapaz estava a formar-se o editor que hoje homenageamos”, observou Alberto Santos, e que “consegue reconhecer uma obra antes de ser premiada”. Saudou ainda a organização do FÓLIO pela homenagem a Zeferino Coelho e também dar a oportunidade aos leitores de falarem com autores, descobrirem obras e de participarem no debate cultural. “José Pinho acreditou que os livros podiam transformar uma terra. Atribuir a Zeferino Coelho o galardão com o nome de José Pinho aproxima estes dois percursos que levaram a literatura mais longe”.