FÓLIO 2026 | “OS HOMENS TÊM MEDO DE PERDER OS PRIVILÉGIOS” – Herminia Luque

Feminista assumida, Herminia Luque, vencedora da Residência Literária em Óbidos para escritores de Granada, está a escrever mais um livro sobre mulheres, em que uma das personagens é Josefa d’Óbidos.

Crítica do desinteresse dos jovens pelo passado, lamenta que queiram regressar aos tempos da ditadura de Franco, por ignorância, e questionem a importância da leitura e do conhecimento. “Espanha teve um retrocesso de 40 anos”, lamenta. Leitora de José Saramago, Lídia Jorge, Maria Judite de Carvalho e Eça de Queirós, é autora de diversas obras premiadas, como “Amar Tanta Beleza” e “Sororidade”. Defende a importância de as mulheres fazerem política e estarem no espaço público, e diz que a forma de combater a extrema-direita é ir à luta e manter a esperança.

Ganhou uma residência literária em Óbidos para escritores de Granada. Nestas duas semanas, conseguiu começar a escrever?
Tomei muitas notas e escrevi fragmentos. Este silêncio, este estar sozinha, é uma experiência diferente. Senti a necessidade de contar, de narrar o que tinha um pouco adormecido. Antes, escrevi mais ensaios e agora quero contar uma história. Quero contar como Josefa d’Óbidos e Ana Heilan, criadora de gravuras de Granada, vão desenvolver a sua vida artística. Quero dar-lhes voz, e que contem as suas vidas. São duas mulheres artistas do século XVII. Vai sair no romance o retábulo de Santa Catarina, de Josefa d’ Óbidos [Igreja de Santa Maria], porque é uma santa sábia e venceu os doutores [50 filósofos] num debate público.

É importante empoderar as mulheres, tendo em conta a existência de uma corrente que defende que devem ficar em casa, a tratar dos filhos, e sem poderem sair com os amigos?
Sim. Há partidos de ultra-direita que negam a violência sobre as mulheres. Este discurso é muito perigoso, porque há meninas e mulheres que não sabem de onde viemos, o que custou às mulheres poderem estudar, terem um trabalho e terem dinheiro. Terem independência económica, decidirem se querem casar e ter filhos, e fazerem o que quiserem com a sua vida. Acreditam que isto está assim desde sempre. Há mulheres excecionais que o fizeram, mas isso custou conquistas muito penosas. Por isso, falo da sororidade [solidariedade entre as mulheres] com um sentido histórico. De onde viemos? Aonde queremos ir? Queremos voltar a amassar pão em casa e a mudar as fraldas das crianças? Não, não, não.

Essa ideologia tem como alvo os jovens?
Sim. Os jovens são os principais seguidores da ideologia de ultra-direita, sobretudo, os rapazes, porque a virilidade e a força os coloca em cima, e as mulheres em baixo. É a mesma história de sempre. O desporto, o futebol, também serve para isso. São fenómenos persistentes, que não podemos deixar de relacionar. Espanha ganhou o Mundial, mas eu não ganhei nada. Identifiquei-me mais com Claudia Sheinbaum, presidente do México, quando disse a Trump que também era presidente. É muito importante as mulheres fazerem política e estarem no espaço público, porque as decisões também têm de ser tomadas por nós.

Os jovens esqueceram-se do que aprenderam nas aulas de História?
Sim, não lhes dão importância. Muitos jovens reivindicam a ditadura de Franco. A ditadura. Não a democracia, não os direitos humanos. Há muito desconhecimento, muita ignorância. Não sabem, nem querem saber. Franco era um criminoso. Chegou ao poder assassinando 300 mil pessoas. Como é que alguém quer isso? Espanha teve um retrocesso de 40 anos. Em que é que esses jovens acreditam? De onde é que eles vêm? Como podem ter ideias tão erradas?

A família não devia falar em casa sobre esse período negro da História?
Sim, mas há famílias que gostam desse passado. Famílias mais tradicionais, que viveram bem, ou que se identificam mais com a religião. Não pode haver um retorno ao passado. Temos de ir avançando sempre. Em minha casa, sempre se viram e comentaram as notícias, sobretudo na hora das refeições, e isso foi fomentando o espírito crítico. E dizer não, isso não é assim, isso não pode ser. Trump é um tirano, é odioso, é uma personagem nefasta. Tem de se fazer esse trabalho, mas para isso tem de se querer conhecer as ideias. E nem todos têm essa vontade de se preparar, de ter espírito crítico.

A minha mãe dizia-me que era muito crítica, mas se eu pensava que as coisas poderiam ser de outra forma, não tinham por que ser assim. Tem de se dizer: não quero isso para mim, quero outra coisa. Eu queria estudar, porque queria ter o meu trabalho. Por sorte, os meus pais sempre me apoiaram. A minha mãe era professora e o meu pai, mesmo não tendo estudos, admirava muito as pessoas que sabiam. E isso perdeu-se. Questiona-se: Ler para quê? Saber para quê? Dizem que ler livros não serve para nada. Quando cheguei ao FÓLIO e vi este entusiasmo, este espírito crítico e muita gente jovem, fiquei encantada. Há esperança, há futuro.

Tem esperança nas eleições em Espanha?
Não. Vai ganhar a direita e a extrema-direita juntas, o que é um perigo. O Vox, partido equivalente ao Chega em Portugal, diz que não há violência de género, porque os homens matam mulheres e as mulheres matam os homens, quando, num ano inteiro, uma mulher mata o marido e os homens matam 50, 60, 70 mulheres. É algo estrutural. Uma mulher diz que se quer divorciar, e o marido diz que a mata e se mata depois, como, às vezes, acontece. Porque não se matam só eles? É uma violência horrível.

A influência do presidente dos Estados Unidos Donald Trump foi decisiva para o crescimento da extrema-direita?
Sim, mas o machismo é mais profundo. Sempre foi assim. Antes ninguém se importava. Só quando as mulheres disseram que não queriam essa vida, que não suportavam que os filhos fossem maltratados. Quando há separações ou divórcios, há um aumento da violência. Não é apenas Donald Trump. Vê-se na televisão que um homem matou a mulher, e outro homem diz que, se a sua mulher lhe fizesse isso, também a matava. É um problema mais social. Em Espanha, o divórcio só foi possível em 1981. Também era preciso ter licença do marido para abortar. Os quadros de Paula Rego sobre o aborto que vi numa exposição, em Málaga, não são explícitos, mas são terríveis. A clandestinidade causava sofrimento a essas mulheres, solidão e incompreensão, e Paula Rego expressa isso muito bem. E pôde ser artista porque foi para Londres. Era muito difícil.

Tem esperança no mundo?
Sim. Maria Zambrano dizia que tem de se ter esperança. Trump vai tirar-me a esperança? Não, Trump vai morrer antes de mim. Somos mais os que temos boas ideias e coração. Queremos liberdade. Não fazer as pessoas sofrer. Conseguir atingir as nossas metas, sem insultar, sem proibir, sem violência. Porque, se perdermos esses desejos, estamos mortos. Se perdermos a esperança, não vale a pena viver. Houve pessoas em Auschwitz [campo de concentração], no tempo dos nazis, que mantiveram a esperança. Temos melhores condições, temos mais possibilidades, temos de lutar. Temos de ter esperança. Estudei e ensinei História, e pensava que não íamos voltar atrás, ao fascismo e às ditaduras, porque vivemos em democracia. E agora vejo que tudo isso se coloca em questão e vai haver um retrocesso. Temos de lutar. Desde os intelectuais, desde os livros, desde a palavra, desde o sentido crítico. E há possibilidades.

Qual a importância dos escritores nessa luta?
Temos um instrumento que é a palavra. Com a palavra podemos fazer, e não deixar que nos rebaixem, que nos calem. Temos de falar e de dizer que não. Queremos liberdade e paz, não queremos violência. Vivemos em democracia, mas não têm de me dizer como tenho de pensar, como tenho de me vestir, o que tenho de fazer com a minha vida. Temos o exemplo do Afeganistão, onde as mulheres com 12 anos já não podem ir à escola, o que é horrível e parece impensável. E o que faz o mundo? Nada. Retrocede.

Acha que os homens têm medo das mulheres?
Sim. Os homens têm medo de perder os privilégios. Os homens sempre viveram muito bem. As mulheres eram escravas domésticas, todo o ano, sem férias, sem serem pagas. Escravas domésticas que só trabalhavam, tinham filhos, para assegurar a descendência, e proporcionavam sexo grátis. E depois, fora do casamento, os homens iam às prostitutas. Isso assenta na masculinidade. Porque é que os homens têm todos os direitos e as mulheres não? Porque temem a perda de privilégios, de controlo, de muitas coisas grátis, de muitas coisas boas, como a comida e o prazer na cama.

Leu “A História de uma Serva” [“El Cuento de la Criada”, em Espanha]?
Sim, é genial. Nos anos 80, Margareth Atwood escreveu “A História de uma Serva”. Há quase meio século. E agora, no século XXI, escreveu “Os Testamentos”. Parecia ficção, mas agora parece realidade. Entre outras coisas, porque aconteceu uma coisa muito grave: a barriga de aluguer. “A História de uma Serva” tornou-se uma realidade, porque já se podem comprar bebés, o que me deixa com os cabelos em pé. Mas, se tiver síndrome de Down, já não os querem. É horrível. Imagine tirarem-lhe um filho, o que significa para ele e para o seu corpo. Aquele bebé que conheceu apenas o seu corpo, o seu odor, o seu alimento, tirado à força para que alguém lhe diga ser sua mãe. É assustador. “A História de uma Serva” é isso, e não acontece nada. Lady Gaga diz que tem uma filha. Não, não tem, porque pagou por ela. Nem tudo pode ser comprado e vendido. É sobre o corpo das mulheres que recai essa mercantilização, para ter filhos, para ter sexo. É horrível, sobretudo para as mulheres especialmente vulneráveis.

Como interpreta o tema desta edição do FÓLIO, “Para além da pele”?
É muito adequado. Vivemos numa época em que se quebrou a fronteira entre o íntimo e o exterior. Tudo é público e pode ser mostrado. Temos de refletir sobre esta ideia de corpo humano, sobre o que significa na nossa sociedade. A alma desapareceu. Restam só os corpos. O corpo é fragmentado, pode ser transformado, triunfante, mas as pessoas deixaram de se identificar com esse corpo. Fomos atravessados pela tecnologia, que vem de um sistema económico e de ideias. Temos de pensar neste conceito de ser humano mercantilizado, vendido, comprado. Queremos um corpo com dignidade e com direitos.

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