FÓLIO 2026 – Escritores Yann Martel e Michael Cunningham criticam administração Trump e manipulação de eleitores

Michael Cunningham, autor do livro “As Horas”, e Yann Martel, autor de “A Vida de Pi”, criticaram a administração de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e os milhões de eleitores que voltaram a elegê-lo, durante a Mesa “Memória”, realizada ontem, 16, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. “Espero que o mundo dure tempo suficiente para isto se tornar uma memória”, observou Cunningham.

Questionados sobre a explicação para mais de 70 milhões de pessoas terem votado num homem “incompetente, corrupto e indigno, que quer anexar o Canadá”, se prendia com a “falta de memória ou a falta de literatura”, o escritor norte-americano Michael Cunningham confessou estar “estupefacto e horrorizado” com o que se passa no país onde vive.

“O facto de isto ser a vontade da maioria dos americanos também é preocupante”, afirmou o autor de “As Horas”, romance adaptado ao cinema, e de “Dia”. “Há muitas pessoas, manipuladas através da Inteligência Artificial, que continuam a apoiar Donald Trump”, testemunhou, ao difundir a ideia de que estão a chegar “pessoas de pele escura e lhes vão roubar o trabalho”.

Yann Martel disse ser fácil “demonizar e insultar” Trump, mas recordou que foi eleito duas vezes por milhões de eleitores. “Temos de pensar por que votaram nele, tal como votaram antes em Barack Obama. É uma sociedade democrática disfuncional”, observou. “Trump fala para as pessoas insatisfeitas, sem emprego ou que trabalham muito, e diz que quer tornar a América grande outra vez [lema do Partido Republicano], mas está a mentir”, afirmou.

Enquanto “há uma classe social que mal consegue viver”, Yann Martel referiu que Elon Musk, o homem mais rico do mundo, apresentou um “carro voador” da Tesla. Após a saída de cena do presidente Trump, dentro de dois anos, espera que o atual vice-presidente J. D. Vance não seja eleito. “Gostava que tivesse sido uma mulher a ganhar as eleições. Hillary Clinton é muito mais inteligente do que Trump, mas estava mais associada ao sistema [marido foi presidente dos Estados Unidos]. Foi pena não ter sido Bernie Sanders [senador], pois teria deixado os Estados Unidos numa situação melhor”, assegurou. “Temos de arranjar pessoas melhores para resolver este problema”.

Obras adaptadas ao cinema

O autor de “A Vida de Pi”, escrito em 2001, distinguido com o Man Booker Prize e adaptado ao cinema em 2012, explicou à plateia que a obra surgiu a partir da pergunta: como é que ainda pode haver pessoas a acreditar em Deus? “Escrever é sempre para responder a uma questão”, explicou. “Não tive uma educação cristã. Fiquei a conhecer Jesus através de ‘O Velho e o Mar’ [de Ernest Hemingway]”, justificou. “O meu primeiro livro vendeu 800 exemplares. Gosto tanto dele como ‘A Vida de Pi’, que vendeu milhões, tal como gosto dos meus quatro filhos de igual forma”.

“Escrevemos com uma intenção mas, muitas vezes, os leitores trazem algo da sua vida”, comentou o autor canadiano. E recordou que escolheu 227 dias para ‘Pi’ estar à deriva no Pacífico, por ser um número primo, pelo que ficou intrigado quando um leitor lhe perguntou se foi apenas por esse motivo e lhe explicou que, se se dividir esse valor por sete, se obtém o valor do Pi. Martel é ainda autor de “As Altas Montanhas de Portugal”, de 2016, sobre o luto, a perda, a fé, o amor e a busca pelo sentido da vida, escrito após uma temporada passada no país, quando tinha 19 anos, em que esteve também em Óbidos. Contudo, confessou que nunca foi às montanhas.

Vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção em 1999 com o romance “As Horas”, Michael Cunningham lembrou que também publicou outros livros, apesar de as pessoas continuarem a falar nessa obra 27 anos depois, em que conta a vida de três mulheres de épocas diferentes, ligadas entre si através do espírito do clássico “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf. “A maior parte dos romances é uma tentativa para registar o tempo, o sentimento, para tentar ir buscar algo que já não existe”, defendeu. “Todos os escritores sentem que falharam no seu íntimo, porque sabem que falta algo, mas importa continuar a escrever sobre tudo.”

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