FÓLIO 2026 | “Não há aprendizagem se não houver um sentido de pertença à escola”
João Costa, diretor da Agência Europeia para as Necessidades Especiais e a Educação Inclusiva, defendeu este sábado, 10, que “não há aprendizagem se não houver um sentido de pertença à escola”. A afirmação foi proferida durante a conferência “Educação Inclusiva: passar da flor da pele para a pele de todos”, integrada no Seminário Internacional de Educação do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.
Na ocasião, João Costa defendeu também modelos preventivos, que permitam identificar, o mais cedo possível, as dificuldades de cada aluno, assim como medidas para responder a todos, em vez de universais.
João Costa explicou que a Agência Europeia para as Necessidades Especiais e a Educação Inclusiva quer trabalhar a partir da experiência dos 32 países, para promover a partilha de boas práticas. “Encontro em muitas escolas experiências incríveis, mas muitas vezes dependem da boa vontade de um determinado profissional”, observou. A título de exemplo, referiu o caso de uma professora de História portuguesa que colocava uma explicação debaixo de cada pergunta, para permitir que um aluno com dificuldades percebesse o que pretendia. “Os nossos pais acham que não é justo”, contou uma jovem, de 12 anos, que partilhou a atitude da docente.
Em resposta, João Costa, que se desloca apoiado numa bengala, desafiou-a a fazer uma corrida. Mas, antes, perguntou-lhe quem ia ganhar, e a criança disse que seria ela. “Então, qual é o propósito desta corrida?”, questionou, o que levou a aluna a compreender o que estava em causa. “É importante darmos oportunidades de acesso a todos. Não através de um currículo mais fácil, mas que convida cada um de nós a ir o mais longe possível”, sublinhou. “A pertença e o bem-estar são fundamentais. Não precisamos de ter um modelo médico, nem de pôr uma etiqueta na testa de cada criança, mas de perceber porque é que algumas têm dificuldade em aprender”.
Desconhecer a língua portuguesa, viver num contexto de violência, ir para a escola com fome ou ser vítima de bullying foram alguns exemplos deixados pelo ex-ministro da Educação. Aconselhou, assim, a comunidade educativa a estar atenta quando os alunos estão tristes ou manifestam dificuldade em fazer um trabalho. “Aprendo melhor porque estou bem e estou bem porque aprendo melhor”, assegurou. Responsabilizou, assim, a falta de modelos preventivos, que permitam identificar, o mais cedo possível, as dificuldades de cada aluno, e começar a agir, pelo “boom da neurodiversidade”, nomeadamente casos de hiperatividade e défice de atenção, e autismo.
Apesar dos avanços que foram sendo feitos ao longo do tempo, João Costa disse que só agora se está na fase do “salto” para a inclusão. “É um salto muito ambicioso, que coloca muito mais desafios, em que estamos todos a aprender em conjunto o que é um projeto de sociedade e de humanidade.” Para tal, defende que se deve ter em conta novos desafios, como o aumento da desigualdade e pobreza, o ciberbullying, a clivagem digital, a instabilidade económica e a insegurança, o contexto de polarização e radicalização, as alterações climáticas e demográficas.
10 pilares da educação inclusiva
O diretor da Agência Europeia para as Necessidades Especiais e a Educação Inclusiva revelou ainda que foi lançado um documento para nortear as políticas no futuro, designado de os 10 pilares da educação inclusiva: bem-estar e pertença dos estudantes, participação familiar e comunitária, aprendizagem ao longo da vida, formação e desenvolvimento profissional, inovações no currículo e na avaliação, transformação digital e IA, colaboração intersectorial, governação e lideranças inclusivas, garantia de qualidade e monitorização, e financiamento e alocação de recursos.
A propósito da partilha de boas práticas, o ex-ministro da Educação recordou uma situação a que assistiu, durante um simulacro de um tremor de terra, numa escola do 1.º Ciclo portuguesa, onde havia duas crianças em cadeiras de rodas, uma das quais “estava integrada e outra incluída”. No primeiro caso, a professora limitou-se a virar a cadeira de rodas ao contrário, para o menino ver. No segundo, o aluno foi retirado da cadeira de rodas por um colega, que o arrastou, e depois deitou-se em cima dele, debaixo de uma mesa. “Sempre que incluímos alguém que estava de fora estamos a construir uma sociedade mais livre”.