FÓLIO 2026 | Prémio Nobel Jon Fosse encara escrita como uma “viagem ao desconhecido”

Vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2023, o escritor norueguês Jon Fosse, 66 anos, reconheceu ontem, perante uma sala cheia no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, ter um dom. “Tenho uma estranha sensação de que está tudo escrito algures e que só tenho de tomar nota”, assegurou. “Simplesmente começo e deixo fluir”.

“E surpreendo-me quando surgem coisas. Aconteceu na ‘Trilogia’. Não preparei o que ia acontecer”, afirmou o autor. “Fiz transparecer a questão humana, real, mas quando me perguntaram quem eram as personagens e de onde vinham, não sabia”, confessou. “Quando começo a escrever tenho de encontrar o meu caminho e há uma altura em que surge uma outra linguagem. Foi preciso algum tempo até perceber que estava a tentar dizer alguma coisa sobre o indizível”.

Autor de mais de 70 livros, Jon Fosse teve um acidente quando tinha sete anos, que o levou a querer ser artista. “Vi-me fora do corpo. Foi uma experiência quase de morte”, contou. “Em certas partes de ‘Trilogia’, vejo-me assim”, partilhou. “A literatura é transcendência, é chegar a outro nível, é maior do que a vida”, observou. “Não escrevo para me expressar, mas para fugir de mim próprio.”

Escrita como refúgio

O escritor norueguês adiantou que, quando era muito jovem, detestava a escola e se refugiava na música. Quando deixou de tocar guitarra, começou a escrever, porque se sentia bem. “É um porto seguro dentro de mim, onde me refugio. É algo que me protege”, explicou. “Comecei a escrever aos 12 anos e continuo a ser esse rapaz. Encontrei esse sítio e é onde estou”.

Pelo meio, Fosse experimentou embriagar-se, pois não sabia o que escrever para ir mais além e constatou, um dia ou dois depois, que “as coisas já estavam mais soltas”. “Já bebi muito, mas para escrever verdadeiramente bem tenho de estar sóbrio. O meu tipo de escrita requer precisão e perco essa capacidade depois de beber um copo de vinho tinto”, constatou. “Prefiro escrever de uma forma simples e profunda ao mesmo tempo. Esse é o desafio.”

“Escrever é uma viagem em direção ao desconhecido, mas temos de nos sentir livres de ir em qualquer direção”, afirmou o autor nórdico. “Houve períodos em que senti receio de me perder, mas escrever é trazer algo que não existia antes. É distanciar-me de mim próprio”, acrescentou. Aos 16 anos, deixou de frequentar a Igreja Luterana, foi ateu, mas depois encontrou o seu caminho na Igreja Católica. “É tudo um mistério. Temos de aceitar isso”.

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