FÓLIO 2026 | “Incluir exige uma enorme capacidade de nos colocarmos no lugar do outro”

“Uma escola inclusiva não é apenas aquela que recebe todos. É aquela em que cada um sente que tem lugar, que tem voz e que pode ir mais longe”, afirmou, esta manhã, José Santos, diretor do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos (AEJO), na sessão de abertura do Seminário Internacional de Educação “A inclusão como projeto de humanidade”, a decorrer este fim de semana, 10 e 11, na Praça da Criatividade, no âmbito da programação do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.

Para José Santos, a inclusão não começa nos decretos, nos documentos orientadores ou nas medidas de suporte, mas “no olhar que dirigimos ao outro, na forma como o escutamos, na disponibilidade para compreender aquilo que não conhecemos e, sobretudo, na capacidade de reconhecer que a diferença de alguém nunca pode ser uma razão para diminuir o seu lugar entre nós”. Com tal, “incluir exige tempo, disponibilidade, conhecimento, recursos e, acima de tudo, uma enorme capacidade de nos colocarmos no lugar do outro”.

Defensor da ideia de que a educação verdadeiramente inclusiva consiste em ajudar os alunos a construir um mundo em que ninguém tenha de pedir licença para existir, José Santos disse que o presidente da Câmara de Óbidos, Filipe Daniel, partilha a paixão pela educação e inclusão. “Isso demonstra que a educação em Óbidos não é entendida apenas como um serviço que tem de ser assegurado. É também uma dimensão central do desenvolvimento do nosso território”, sublinhou.

“Talvez, daqui a uns anos, os nossos alunos se recordarão de quem acreditou neles quando tiveram dificuldades, de quem lhes deu uma segunda oportunidade, de quem percebeu que, por detrás de um comportamento, havia uma história, de quem não desistiu deles quando teria sido mais fácil fazê-lo”, acredita o diretor do AEJO, ao reconhecerem que precisavam de mais tempo ou de outros caminhos. “Isso sim, é educação.”

Olhar além dos rótulos

Na ocasião, Filipe Daniel explicou que este encontro nasceu da convicção profunda de que a escola precisa de reencontrar a sua humanidade. “Vivemos num tempo marcado por uma dupla tensão, entre a promessa da tecnologia e a urgência da humanidade, entre a aceleração do mundo e a necessidade de criar espaços de encontro, de escuta e de pertença”. “A inclusão, entendida como projeto de humanidade, é precisamente o lugar onde estas tensões se tornam férteis”, observou.

“O tema do FÓLIO deste ano, ‘Para além da pele’, desafia-nos a olhar para o que está para lá das superfícies, dos rótulos, das identidades imediatas”. “E é isso que este seminário propõe: um mergulho no essencial, na relação connosco e com o outro, naquilo que nos constitui enquanto comunidade educativa”, lembrou.

“Óbidos é um território que não celebra apenas a literatura: celebra a humanidade. Acreditamos que a educação é, antes de tudo, um ato profundamente humano, feito de gestos, de vínculos, de cuidado, de presença”.

Cristina Santos, diretora do Centro de Formação das Associações de Escolas Centro-Oeste, destacou o facto de o município de Óbidos estar “sempre na linha da frente e disposto a contribuir para que as coisas aconteçam”, desde que a transferência de competências para as autarquias, na área da educação, aconteceu.

“Quando as instituições conseguem trabalhar de forma alinhada, quem está no terreno sente a sua vida mais facilitada”, assegurou. “O desafio central é, cada um de nós, conseguirmos não transformar a diversidade em desigualdade”, sublinhou.

“Há dois patamares de ação na formação contínua: a criação de espaços de reflexão, de debate e de partilha sobre inclusão, centrados na responsabilidade individual e, num segundo plano, a capacitação técnica”, adiantou Cristina Santos. Neste caso, deu como exemplos o desafio de acolher bem os imigrantes e de ultrapassar a barreira linguística, através de aulas de Português Língua Não Materna. “As parcerias permitem articular respostas. Há sempre entidades a quem bater à porta”, garantiu.

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