FÓLIO26 | Anne Serre escreve ficção a partir de “frase que se impõe” após um sonho

Todos os livros de ficção da autora francesa Anne Serre foram iniciados a partir de “uma frase que se impunha no final de um sonho”, enquanto a autora portuguesa Ana Margarida de Carvalho diz que as ideias para escrever surgem a partir de imagens. Apresentadas pela moderadora Ana Sousa Dias como duas escritoras diferentes, que têm em comum a ficção, ambas debateram o tema, na noite desta sexta-feira, 9 de outubro, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, assumindo posições quase sempre distintas, à exceção do distanciamento em relação à realidade no processo de escrita.

“Comecei todos os meus livros com uma frase que se impunha a mim, ao acordar, no final de um sonho que acabei de ter. Sentia que aquela frase continha um livro”, explicou Anne Serre. Admitiu, contudo, por vezes, enganar-se. “Pensava que ia dar um livro maravilhoso e, ao fim de 10 páginas, nem valia a pena insistir”, assumiu. “Quando não me enganei, a frase continha mesmo uma história, como se fosse fabricada e só tivesse de a escrever. Nunca penso: vou escrever sobre tal assunto”.

Ex-jornalista e ex-crítica de cinema, Ana Margarida de Carvalho explicou que as suas ideias surgem mais a partir de uma imagem. “Somos de uma geração cheia de memórias visuais”, justificou. Apesar disso, referiu que as palavras também têm muito impacto. “Grito e vejo o que o eco me devolve”, comentou. “A ideia não é atormentar os leitores, mas gosto de complicar, do caos, da desorientação, do desencontro”.

Influenciada pela pintura e pelo cinema, Anne Serre manifestou uma “grande paixão” pela obra do cineasta italiano Federico Fellini, ao qual continua a fazer referência em cada texto. “Gosto que esteja instalado em cada um dos meus livros”, observou.

Com o passar do tempo, passou a interessar-se menos pelo sublime. “O que me toca são os rostos, os corpos. É quase impossível escrever um rosto”, admitiu. “Todos os quadros e filmes que vi entram no meu imaginário e dançam em conjunto”, sintetizou. Já Ana Margarida de Carvalho garantiu que as suas personagens “quase não têm cara”.

Questionada sobre o motivo que a levou a escolher uma citação de Fernando Pessoa para iniciar o livro de contos, Anne Serre explicou que a obra agrupa 30 a 35 histórias contadas por narradores diferentes. “Toda esta gente vive em mim. Não há apenas uma voz que representa a minha forma de pensar ou de ver. Tenho um velhote, um bebé, uma louca, uma mulher deliciosa”, esclareceu. “O nosso olhar depende daquilo que somos. Criamos mundos que não existem. Este mundo não nos satisfaz totalmente e precisamos de criar coisas que não existem”, acrescentou a escritora portuguesa.

Infância não sai de nós

“O romance é o sítio onde nos expomos mais, onde nos despimos mais. É muito embaraçoso. Se pudesse, escrevia sempre sob pseudónimo”, revelou Ana Margarida de Carvalho. “Tem a ver connosco, com o nosso passado, com aquilo que nos atormenta. Os meus livros são muito eu”, confessou. “A infância não sai de nós. É um chão que é pisado e repisado. Os nossos pequenos fracassos, as nossas alegrias. Arrastamos coisas do passado uma vida inteira e pequenos acontecimentos até ao fim da vida.”

As duas escritoras preferem, porém, alhear-se do que se passa no mundo quando escrevem, como as manifestações em França, Espanha e Bélgica. “O mundo pode desmoronar e continuo a escrever a mesma história”, assumiu Anne Serre. “Nunca escrevo sobre o que está a acontecer. Este mundo é tão bizarro. Não sei como regredimos tanto. Como é que deixámos isto acontecer e não parámos antes? Como fomos tão benevolentes?”, questionou Ana Margarida de Carvalho. “Somos um povo de brandos protestos, em relação ao que se vê noutros países. Como se nos tivessem enfiado um prego no cérebro”.

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