FÓLIO 2026 | Prémio Nacional de Ilustração exclui BD após criar distinção própria para a categoria

Ao fim de 30 anos, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) vai excluir a categoria Banda Desenhada (BD) do Prémio Nacional de Ilustração, por ter criado este ano um prémio específico para esta arte. A novidade foi avançada por Sara Ludovico, da DGLAB, numa conversa com ilustradores, designers gráficos e editores, ocorrida no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. Na ocasião, a mesma responsável admitiu a possibilidade de tornar públicas as listas dos autores a concurso, indicadas pelas editoras.

Enquanto ex-elemento de um júri, Dora Batalim explicou que, após as editoras enviarem à DGLAB os livros com ilustrações que consideram merecer ser premiadas, as obras são enviadas a cada um dos jurados, que define os seus próprios critérios de qualidade. “É uma missão séria”, sublinhou. “Temos de nos abstrair das narrativas e de um bom trabalho gráfico, o que é muito difícil, porque tudo isto é um todo”, admitiu. “O que vos asseguro é que não há cotas, do género: este nunca ganhou”.

“Sentimos pena por essa diversidade não se notar, em termos editoriais”, reagiu Adélia Carvalho, da editora Tcharan. “Há tantas editoras com trabalhos bons, e parece que entregam os prémios sempre às mesmas. A sensação de frustração dos ilustradores é muito grande”, garantiu. “No ano passado, ganharam três livros da mesma editora. Isso parece-nos muito mau”, comentou. À crítica, Sara Ludovico esclareceu que “a comparação é entre os livros, e não entre as editoras”.

Vencedor crónico

Designer de comunicação e moderador da conversa, Jorge Silva recordou que, em 2017, quando fazia parte da BIG – Bienal de Ilustração de Guimarães, o artista que queriam premiar era “um crónico vencedor de prémios”, referindo-se a João Fazenda, sentado ao seu lado. “Ponderámos isso na avaliação prévia, mas mesmo assim continuámos a achar que o trabalho dele era o melhor. Não sentimos nenhuma pressão da DGLAB”, confirmou. Mas não escaparam às críticas de alguns ilustradores.

“Não será possível fazer alguma regulação?”, questionou Jorge Silva. Sara Ludovico não se manifestou favorável a “introduzir fatores que possam condicionar o júri”. “Este ano, nenhum de nós tinha escolhido o mesmo livro, o que deu lugar a um debate intenso”, revelou. “Estamos sempre sujeitos a críticas, porque é um exercício muito subjetivo”. Admitiu, porém, tornar públicas as listas dos autores a concurso, ideia com a qual concordaram várias pessoas na assistência.

“A crítica que recebemos é que são sempre os mesmos a ganhar. Isso diz muito mais de nós como sociedade”, observou Bruno Eiras, subdiretor-geral da DGLAB. “À data, não estão previstos espartilhos. O júri tem total independência e roda todos os anos, para não haver nenhum contacto entre eles”, garantiu. “Da minha experiência, não há um conhecimento prévio. É como se reunisse, pela primeira vez, com os livros”, confirmou Dora Batalim.

Reconhecimento dá alento

João Fazenda esclareceu que “a importância dos prémios é circunscrita ao momento”, explicando que ninguém trabalha com esse objetivo. “Esta área pecava por alguma espécie de reconhecimento. É um trabalho pouco compreendido e com poucos meios. Ganhar dá-nos alento. É sinal de que fizemos qualquer coisa bem”, afirmou.

A ilustradora Inês Viegas de Oliveira concordou que o intuito não é ganhar prémios. “Sinto que faço livros para chegar ao outro lado, a alguém. O mais importante é ter um leitor que nos diz: ‘Adorei o livro’. É das sensações mais maravilhosas que existem”, revelou. “Enquanto estamos a criar, é importante sentir que não temos constrangimentos”. Destacou ainda a importância do valor monetário. “Posso pensar noutro livro, à minha maneira, de forma livre”, observou.

“Os livros que são recorrentemente premiados dão primazia à liberdade de ilustração”, sublinhou João Fazenda. “As editoras também têm responsabilidade nos livros que põem cá fora. Muitas são mais conservadoras na sua aparência”, afirmou. “Nos últimos anos, os trabalhos que ganharam são muito pouco convencionais. A editora tem muita influência no trabalho que fazemos”, assegurou.

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