FÓLIO 2026 | “Há uma corrupção completa no sentido da humanidade” – Valter Hugo Mãe
O escritor português Valter Hugo Mãe disse, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que “há uma corrupção completa do sentido da humanidade”, defendendo que esta tem como premissa o esforço de quem faz, e não quem manda fazer. A afirmação foi feita durante a Mesa “Mãe”, no último dia do festival literário, ocasião em que esteve à conversa com a autora brasileira Ana Maria Gonçalves sobre mulheres, escravidão e racismo, e à qual assistiu o Presidente da República, António José Seguro, e o Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos.
“Historicamente, as mulheres são epifânicas no poder. Estou em crer que a humanidade terá futuro se dermos lugar às utopias femininas”, afirmou Valter Hugo Mãe, a propósito de “O Século dos Imbecis”. “O livro mostra como o poder masculino é pomposo, está assumido e legitimado, mas parece embocar em coisa nenhuma, e as mulheres resistem como fazedoras”, explicou.
Foi por esse motivo que o escritor optou por não atribuir nome às personagens femininas da obra, mas tratá-las como “a criada”, “a marquesa”, “a pasteleira”, “a coveira” e “a pessivista”. “Há uma condição masculina de existir que é muito mais mediana. A condição da mulher é muito mais extrema: é mais intensa na felicidade e no amor”, justificou. “As mães que fabricam os filhos pagam o amor extremo que nunca mais é curável”.
Apesar de não ter tido filhos por opção, Ana Maria Gonçalves publicou o livro “Um Defeito de Cor”, há 20 anos no Brasil, que chegou apenas este ano ao mercado português, em que retrata a vida de uma criança negra africana, vendida como escrava e levada para a Baía, separada mais tarde do filho, a quem deixa como “herança” a narração da sua história. A obra recebeu o Prémio Casa de Las Americas, e foi recentemente eleita como “o melhor livro de literatura brasileira do século XXI”, por leitores e críticos do jornal “Folha de S. Paulo”.
Literatura e liberdade
Com uma t-shirt vermelha estampada com a raiz quadrada de 169, cujo resultado dá 13, em alusão ao número com que Lula da Silva concorre às eleições, a escritora contou que, há dois anos, recebeu um bilhete “extremamente importante” do presidente do Brasil. “Leu o meu livro em seis dias, quando estava na prisão. E disse que, se o tivesse lido antes e a vários outros de uma lista de 40 livros que leu na prisão, teria feito dois governos diferentes, porque ficou com um entendimento diferente do Brasil”, contou. “A literatura tirou-o lá de dentro. É isso que a literatura pode fazer pela gente”, considerou a primeira mulher negra eleita para a Academia de Letras e a 13ª mulher. “Número 13”, sublinhou.
Identificando-se como “reescritora”, Ana Maria Gonçalves garantiu que reescreveu “Um Defeito de Cor” 19 vezes do zero, porque “a história não fluía”. Após dois anos de pesquisa, um ano de escrita, e dois anos de reescrita, o livro ficou com mil páginas, após ter cortado 400, a pedido do editor Millôr Fernandes. “Disse-me para tirar fora tudo o que achasse que estava lindo e perfeito”, recordou. A obra tem como personagem principal Kehinde, do Benin, sequestrada aos 8 anos para ser escrava. “A protagonista negra é uma forma de combater o silêncio que foi imposto às minorias”, desvendou, apelando ao questionamento.
“O Brasil foi o último país das Américas a acabar com a escravidão. A maternidade durante a escravidão era um processo impossível. O ventre da mulher gerava mais escravidão”, comentou a autora. “Foi um processo de violência extremo. Narrar essa violência é também narrar a violência quotidiana”, afirmou. Aludiu ainda a um trecho de uma música do grupo brasileiro O Rappa, que guardou na memória: “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, em alusão ao compartimento das viaturas dos polícias que, segundo a banda, “transporta de forma desproporcional a juventude negra e periférica, evidenciando o racismo estrutural e a violência policial no país”.
Valter Hugo Mãe considerou a leitura da obra da autora brasileira “obrigatória”, como se se tratasse de uma prescrição médica. “Este livro é uma vitória literária. Escreveu mil páginas, mas ainda assim foi preguiçosa. Queremos saber mais e detalhes sobre algumas figuras que vai deixando cair”, afirmou, que ultrapassam as 450. “São poucos os livros que ao fim de 150 páginas não nos aborrecem. A urgência de saber mais é muito rara”, lembrou. “Parece parente de Dostoievski, Tolstói, Victor Hugo ou Marcel Proust. Como é que conseguiu erguer sozinha um livro da dimensão dos [Mosteiro] Jerónimos?”, questionou.
Imbecis são os outros
“Os meus editores não conseguem negociar comigo nada. Será que estou errado? Eu escuto os editores, mas não ligo nada”, confessou o autor português. “Não consigo mudar os títulos. Mudar um título meu era como mudar o nome aos meus filhos”, observou. A propósito da escolha do título “O Século dos Imbecis”, ironizou, dizendo que “imbecis” não é uma ofensa, porque as pessoas pensam que imbecis são as pessoas que estão ao lado. “Quem comprou o livro não vai perceber que estou a escrever sobre elas, mas sobre o vizinho”, afirmou.
À pergunta, onde é que falhámos para o mundo estar partido ao meio, Valter Hugo Mãe respondeu: “Eu não falhei. Voto sempre certo. Se pudesse, votava 13 vezes”, em alusão a Lula da Silva. “As pessoas estão emotivas e cada vez mais irracionais. Substituiu-se a ciência pelo achismo. Estou farto de sentimentos. Isso é para os psicólogos e psiquiatras. Votar e ser cidadão tem de ser mais racional. Temos de ouvir quem sabe e temos de ser consequentes”, enfatizou.
A propósito do racismo, considerou que “o preconceito está enraizado na forma de as pessoas sentirem”, repetindo que “se forem estúpidas, exercem a estupidez mesmo perante a ciência”.