FÓLIO 2026 | Indígena pede ajuda para defender “grande alma” da Amazónia
Davi Kopenawa, Xamã Yanomami, comunidade indígena que vive na Amazónia, Brasil, afirmou, durante uma conversa sobre o livro “A Queda do Céu”, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que os Estados Unidos estão a estragar as terras, os rios e a prejudicar o seu povo para “roubarem ouro, diamantes e outras pedras preciosas”. Sentado no chão do palco da tenda literária, confessou viver com “muita raiva e revoltado” por o terem tentado enganar e ao seu povo. “Os americanos são muito perigosos para nós todos”, avisou.
“Quando era pequeno, sofri muito, perdi a minha família e a beleza da floresta, porque o homem que vem de longe enxerga e vai invadindo sem permissão, sem dialogar com o povo original”, contou Davi Kopenawa. “A queda dos seres está a chegar”, alertou. “Estamos a precisar do apoio de vocês. Somos seres humanos e um povo só”.
Embora sem mencionar a palavra, o xamã fez alusão ao consumismo generalizado. Pelo contrário, o “povo originário” que só precisa de objetos essenciais, como o machado, a faca e a panela, sem sentido da posse ou obsessão da perpetuidade. “Aqui está cheio de materipa [mercadoria], à espera para aumentar o preço e ficar mais caro”, observou. “Os milionários, os capitalistas, que gostam de dinheiro, mandam em todos nós, na Europa, no Brasil. Querem tirar todas as materipas que estão na terra. Nós não. Nós choramos com o que ele tirou”, relatou.
Crente em Deus, mas crítico da Igreja, Davi Kopenawa disse que os Yanomami lutam pela “grande alma da floresta amazónica brasileira”, cuidando e preservando da “terra que cuida de nós”. “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai-se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor”, escreveu no prefácio do livro “A Queda do Céu”, da sua autoria e de Bruce Albert, após o compromisso do antropólogo de que seria fiel às suas palavras.
A importância das crianças
“Os antropólogos andam em vários lugares a captar a sabedoria do povo originário. São espertos. Sabem roubar o conhecimento do povo da floresta, que canta, fala e conta histórias, para ficar famoso e escrever livros. É mercadoria”, comentou Davi Kopenawa. “Este livro [“A Queda do Céu”] não. Este livro é para os professores ensinarem e para os filhos aprenderem o caminho certo: o conhecimento de como a natureza nasceu. É uma mensagem para as crianças que não aprendem com os pais que estão fazendo erros”.
O Yanomami partilhou que quer fazer um livro para crianças, que “fale sobre as plantas pequenas, as árvores que estão nascendo e de que eles vão cuidar”. “Já estragámos as nossas florestas. Eles têm de cuidar para manter a floresta viva”, sublinhou. “Tem de se escrever sobre a fome. Não é só a água e o peixe que vão morrer. Nós também. Temos de falar sobre a defesa do nosso planeta. Não só da cidade, ou do capital. Estamos morando aqui”, lembrou. “Brasil é o centro do mundo, onde a floresta nasceu. O mundo inteiro está junto com o povo originário, para preservar e guardar a nossa terra mãe”.
Após a sessão, em que Dani Kopenawa falou diversas vezes no seu dialeto, as pessoas que o ouviram atentamente depositaram, numa taça, pequenos papéis onde escreveram palavras como “viver o sonho da terra, natureza, união, alma, cuidar do outro, cuidar o nosso bem comum, empatia, humildade, conhecimento, partilha, respeito, alegria, agir, parar, despojar e Lula”. As mensagens foram, depois, espalhadas no chão, junto à Igreja de Santa Maria, em solidariedade com o povo indígena Yanomami e em defesa da floresta da Amazónia, momento em que o xamã participou.