FÓLIO 2026 | Óbidos quer fazer da literatura uma força transformadora do território

Onze anos após a criação do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, por iniciativa de José Pinho, administrador da Ler Devagar, e Telmo Faria, então presidente do município, o atual executivo quer ir mais longe. Quer transformar a literatura numa política pública estruturante, para transformar e desenvolver o território em diferentes áreas. O primeiro passo nesse sentido foi a criação do Conselho Estratégico da Literatura e do Conhecimento, constituído pelos escritores Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Mia Couto, Pedro Freitas, Pilar del Río, Tatiana Salem Levy e Valter Hugo Mãe.

“Durante muito tempo, a cultura foi tratada como um complemento das políticas públicas. Investia-se em economia, nas infraestruturas, na educação e na saúde, enquanto a literatura permanecia, demasiadas vezes, confinada ao universo da programação cultural. Em Óbidos, queremos desafiar essa visão”, afirmou Ricardo Duque, vereador da Cultura. “Acreditamos que a literatura pode ser uma política pública estruturante, capaz de transformar a educação, favorecer a democracia, gerar desenvolvimento económico e criar novas oportunidades para os territórios”, sublinhou. “Não queremos apenas ser uma vila onde acontecem festivais literários. Queremos ser um território onde a literatura influencia a forma como pensamos, decidimos e governamos”.

Sobre os seus membros fundadores, Ricardo Duque esclarece: “Escolhemos pessoas que, pelo seu percurso, pela sua idoneidade, pela sua experiência, estão disponíveis para ajudar o concelho de Óbidos”, explicou. O Conselho Estratégico terá como objetivos consolidar a programação dos diferentes eventos e, ao mesmo tempo, definir de que forma se pode olhar para a literatura como política pública, em todos os raios de ação do município. Para tal, o autarca assegurou que, além do interesse público, é muito importante que haja “independência crítica”.

“Temos tido a particularidade de, ao longo dos anos, contar com curadores que têm total liberdade para criar e para propor. Não existe por parte da autarquia, nunca existiu, e espero que continue a não existir, qualquer lápis azul ou qualquer carga ideológica no que diz respeito à programação”, garantiu Ricardo Duque. A intenção é continuar a trabalhar na área da internacionalização, embora, salientou, “os eventos literários tenham, desde a sua origem, a valorização e a promoção da língua portuguesa” como missão – em parceria com os países lusófonos -, continuar a trabalhar com a academia, continuar a aliar a tecnologia, e formar novos públicos, em articulação com as escolas. “Se queremos ser um grande jogador de futebol, não começamos a jogar aos 30 anos. Se tivermos o primeiro contacto com a literatura aos 30 anos, não vamos estar despertos da mesma maneira”.

O vereador da Cultura recordou que lhe fazia “alguma confusão” criar um festival literário no concelho de Óbidos, onde a maioria das pessoas não sabe ler, pensamento que partilhou com o então presidente do município Telmo Faria. “E ele disse que um dos objetivos que temos, enquanto decisores públicos e enquanto pessoas com responsabilidade, é ensinarmos e criarmos condições para que essas pessoas possam despertar o gosto de ler”, esclareceu. “Hoje, reconhecemos todo o trabalho que foi feito na área da literatura, mas há 10 ou 15 anos ninguém considerava que esta estratégia poderia, de alguma forma, transformar o futuro”, observou. “Um dos meus objetivos é que Óbidos não seja apenas um território de programação, mas um espaço de conexão, como, de alguma forma, temos vindo a fazer ao longo do último ano”, acrescentou, e que pretende que o conselho estratégico desenvolva.

A olhar para o futuro

Presentes na apresentação do Conselho Estratégico, esta terça-feira, 13, no FÓLIO, Pilar Del Río, escritora, jornalista, tradutora e presidente da Fundação José Saramago, José Luís Peixoto, curador do Latitudes – Festival de Literatura e Viajantes, em Óbidos, e um dos escritores portugueses contemporâneos com maior projeção internacional, e ainda Pedro Freitas, conhecido como o Poeta da Cidade, destacado pela sua “visão inovadora sobre a mediação da literatura, a atração de públicos jovens e a integração das plataformas digitais como palcos vividos da palavra”, partilharam a sua visão com os presentes.

Desafiados a proporem uma única grande medida de política pública para transformar Óbidos através da literatura nos próximos 10 anos, Pedro Freitas propôs a oferta de um passe mensal de 100 euros a jovens de 15 anos, para gastarem exclusivamente em cultura, seja em museus, em exposições, em cinema, em teatro ou em livros. E, passados alguns anos, avaliar os impactos na formação de hábitos culturais desses jovens e das suas famílias.

Tendo em conta que as novas gerações vivem um mundo dominado pela velocidade, pelos algoritmos e pelos conteúdos imediatos, o poeta da cidade defendeu que “as novas plataformas vão ter de ser a nova televisão”, que disse ter perdido “o fulgor e o poder que tinha de levar conteúdo às massas e de as levar a agir”.

“Só que enquanto nas televisões [o impacto] talvez fosse mais fácil de calcular, pois quase toda a gente tinha uma televisão e havia poucos canais, hoje, havendo um conjunto enorme de plataformas e de aparelhos a que nos ligamos torna-se muito difícil”, admitiu Pedro Freitas.

“Muitas vezes, abro o Twitter e vejo que há um novo update no ChatGPT e que agora consegue fazer isto e aquilo. É profundamente assustador apercebermo-nos da velocidade a que as coisas evoluem, mas é de uma insensatez muito grande as entidades públicas olharem de lado para estas plataformas e para a Inteligência Artificial, porque são o nosso futuro”, ressalvou. “Temos a bagagem que a literatura nos deu. Tudo aquilo que aconteceu antes de nós”, recordou. Nesse sentido, considerou fundamental dialogar com os jovens. “Eles nascem neste meio.”

“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos ”

“Os lugares onde moramos expressam o que dizemos. Somos o que dizemos. Se dizemos banalidade, somos seres banais. Se pretendemos algo maior, se calhar, temos de pensar um bocadinho mais o que dizemos”, disse Pilar Del Río. “Há uma frase de Saramago [de quem é viúva] absolutamente extraordinária, que diz que somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória, não existimos. Sem responsabilidade, talvez não mereçamos existir”, comentou. “As muralhas de Óbidos não são para se defender, são para comunicar, para caminhar até chegar a outros lugares. Acho uma ideia extraordinária pensar neste lugar com tanta memória, que deve ser também um lugar de responsabilidade”.

Questionada por Ricardo Duque se não será um erro político continuar a tratar a literatura como uma questão exclusivamente cultural, quando deveria ser entendida como uma prioridade democrática, “num tempo em que resistimos à ilusão do pensamento crítico, ao crescimento dos populistas e a uma crescente superficialidade do debate público”, a escritora espanhola respondeu que “há uma emergência de forças que nos trazem de volta a um passado terrível, que pensávamos que nunca voltaríamos a ver e a sentir”. Rejeitou, contudo, o que dizem ser inevitável.

“Não é inevitável se estivermos com a cultura, com o amor, com a responsabilidade”, sublinhou. “A liberdade e a democracia são os elementos que nos distinguem dos outros seres humanos.”

A importância da literatura

José Luís Peixoto confirmou a importância da literatura e da cultura no desenvolvimento do território e da vida das pessoas. “Eu e a Pilar, e provavelmente muitas das pessoas que aqui estão, temos essa convicção e contribuímos para isso”, afirmou. “Cada vez que lemos um livro, escrevemos um livro, sugerimos um livro a um amigo, de certa forma estamos a fazer esse trabalho e também a reforçar essa convicção da importância da leitura e da cultura”, justificou. Em relação ao Município de Óbidos, defendeu que “afirma de uma forma real, diária, em todos os momentos, essa importância”, também nas dimensões económica e social, associadas à cultura, de que é exemplo o turismo.

“Quando se atrai pessoas para um lugar, o que é que se lhes tem para oferecer? Muitas vezes, é a própria matéria da literatura. É a história do lugar, é a forma de o perceber, é o olhar que se tem para o lugar”, lembrou o curador do festival Latitudes. “E, muitas vezes, aquilo que se faz é oferecer uma versão redutora que, muitas vezes, até molda artificialmente um lugar, ou uma narrativa, com a qual os locais nem se identificam”, criticou. “A literatura diz, muitas vezes, que as coisas são mais complexas do que parecem. Diz que vale a pena continuar a procurar e querer saber mais. O que há para saber não se dá por conhecido numa simples abordagem.” Elogiou, por isso, a visão do município, ao identificar a necessidade de um trabalho literário que “enriqueça” Óbidos e a “vontade de ir ao fundo das coisas”.

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