FÓLIO 2026 | Clubes online quebram isolamento e aproximam leitores
Num território com 6230 quilómetros quadrados, ocupado por comunidades dispersas, a criação do clube de leitura online “A Ler com a RIBAA” (Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Alto Alentejo) aproximou a população dos 15 municípios à volta do livro. O projeto contribuiu para quebrar o isolamento da população, ao promover quatro encontros online por ano, durante os quais os leitores têm a oportunidade de falar com os autores. Este e outros exemplos foram partilhadas, ao longo do dia desta segunda-feira, 12, no V Encontro Nacional de Grupos de Leitores da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, realizado no contexto da programação do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.
“Enquanto no clube de leitores da biblioteca há um sentimento de pertença, no online há uma aproximação das comunidades dos 15 municípios, que ficam muito afastadas”, explicou Ana Luísa Lucas, bibliotecária do Município do Gavião.
Vitória Medalhas, bibliotecária municipal de Monforte, confirmou que a limitação criada pela distância entre a população e as bibliotecas foi transformada numa oportunidade, através do clube de leitores online, graças à Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, que disponibiliza a plataforma zoom para o efeito. Na sua opinião, o digital é uma ferramenta que permite incluir e estimular a participação.
“Conseguimos unir as pessoas, que se tornaram parte ativa do clube de leitura”, garante, apesar de não haver contacto físico com os livros. Ana Luísa Lucas identificou como a maior diferença entre os clubes presenciais e os clubes online o facto de nas bibliotecas funcionarem sempre, enquanto online pode não haver acesso à Internet.
No caso de Monforte, município com três mil habitantes, também existe um clube de leitura presencial na biblioteca municipal, há 12 anos. Vitória Medalhas assumiu que “não tem sido nada fácil, mas tem vindo a funcionar, por cativar as pessoas”. Com cerca de 20 leitores, apenas 10 o frequentam com regularidade. Contudo, desde que iniciaram intercâmbios com o clube de leitura em português de Badajoz, em Espanha, o número de leitores aumentou.
Covid-19 dá empurrão
Tânia Camilo, coordenadora da Biblioteca Municipal do Cadaval, e Aida Reis, coordenadora da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, que integram a Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Oeste, explicaram que o projeto Colo foi constituído em 2020 para dar resposta ao isolamento social, durante a pandemia de Covid-19. “Sentimos que as pessoas estavam sozinhas”, justificou Tânia.
“O Colo quebra o isolamento e potencia uma proximidade entre os leitores, mas também entre os livros e as partilhas”, assegurou a coordenadora da Biblioteca Municipal do Cadaval. “Numa comunidade online, não há fronteiras, pois está aberta a qualquer pessoa dentro ou fora do nosso território, desde que tenha Internet. Temos portugueses a viver nos Estados Unidos e em Londres, e de norte a sul do país”, revelou.
Aida Reis confirmou que o Colo permite “partilhar ideias e conhecimentos, trocar livros, e ficar a conhecer autores, abrindo os horizontes”. Contudo, confessou que, “às vezes, não é fácil pensar no tema, nos autores e fazer divulgação com antecedência”. O ponto de partida é sempre um livro, mas Tânia Camilo esclareceu que “nada impede um clube de leitura de falar sobre outros temas fora da literatura”, dando como exemplo o isolamento ou receitas culinárias. O próximo será sobre inteligência artificial.
Críticas bem-vindas
O Clube de Literatura da Biblioteca da Penha de França foi criado em 2011, por sugestão de um leitor, e passou a ter um formato online quando as pessoas ficaram isoladas em casa, durante a pandemia. Tem 15 participantes fixos, número que a bibliotecária Ana Correia considera o ideal. “Crio o guião de leitura, mas a ideia é as pessoas participarem e darem a sua opinião. Queremos que digam quando não gostam. Tudo é válido”, esclareceu.
“A participante mais idosa tinha um grande entusiasmo. Foi o médico que recomendou, mas queria muito estar ali”, contou Ana Correia. “A certo momento, parece que estamos todos juntos na sala. Não me livro do computador, mas consegue-se uma partilha genuína”, comentou. Também participam pessoas de outros pontos do país, como Castelo Branco e Porto, e ainda do Brasil e da Suíça. Neste último caso, a leitora é filha de uma brasileira que vive em Lisboa.
Face ao “bombardeamento de informação nas redes sociais”, a Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Oeste também opta pelo ‘passa a palavra’ para divulgar os autores convidados. “A divulgação é um problema, e tememos que o cartaz passe despercebido”, afirmou Aida Reis. Responsável pela Biblioteca Municipal de Óbidos – Casa José Saramago, e moderador da mesa, Pedro Luís assegurou que, num ambiente rural, colocar um cartaz no café da aldeia é uma estratégia eficaz.
Clube em inglês
“Temos uma comunidade muito grande de várias nacionalidades, que criou um clube de leitura em inglês, onde discutem livros, autores e temas”, adiantou Pedro Luís. “É uma forma de integração entre eles. Têm uma grande biblioteca e trocam livros. O nosso fundo bibliográfico em inglês, francês e alemão foi oferecido por eles”, revelou. “É um exemplo do que se pode fazer noutras comunidades estrangeiras residentes”, sugeriu.
Acompanhada por quatro leitores, Ivone Brás, coordenadora do Clube de Leitura de Bragança, explicou que só funcionou online na pandemia. “É um espaço de afetos e de partilha, onde não falamos só de leitura, mas da morte e de viagens”, exemplificou. Organizam ainda passeios, jantares e caminhadas literárias. “Vamos começar a planear o próximo ano, com a participação de todos. Somos uma família”, garantiu. As inscrições e renovações só são aceites em janeiro.
Face ao entusiasmo das partilhas, um dos bibliotecários presentes disse que ia sugerir criar um clube de leitura online na Biblioteca Municipal de Lagos, no Algarve. Acompanhado por alguns leitores do clube de leitura presencial, contou que há dois casais, na faixa dos 80 anos, que se conheceram lá. “Não se iam encontrar online”, assegurou.