FÓLIO 2026 | Poetas Adriana Hoyos e Valeriu Stancu recebem distinção Josefa d’Óbidos

A poeta colombiana Adriana Hoyos e o poeta romeno Valeriu Stancu receberam hoje, 13, a distinção Josefa d’Óbidos, em “reconhecimento da sua relevante trajetória poética e da sua inestimável contribuição para a poesia e para a cultura contemporâneas”. Atribuído no âmbito do Dia da Poesia, celebrado no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, o prémio foi um dos momentos altos do programa, que inclui ainda recitais de poesia, o debate “A poesia contemporânea além das línguas” e o lançamento de livros, ao longo do dia.

“Aprendi com o passar dos anos que compreender os objetos e a essência das coisas leva o seu tempo. Há que ter alguma paciência e, sobretudo, desfrutar do momento”, afirmou a poeta da Colômbia, após receber a distinção. “Contemplar a paisagem, a quietude, o movimento das folhas, o fluir do rio, despertar a música que temos dentro de nós e deixar-nos levar para tempos longínquos”, acrescentou. “A arte poética é esta conversa silenciosa que tenho com os objetos, com a Natureza e com Deus. É aquele que me abre a porta da perceção”.

Adriana Hoyos confessou que se interroga, com assombro, sobre o sentido das coisas. “Acordo para aquilo que acontece de forma bela e misteriosa nos fenómenos que transitam o instante e que transcendem o puramente descritivo. Procuro as palavras, a ideia, invoco a inspiração”, disse. “Na poesia, sinto que há algo que transcende o puramente racional e descritivo, elevando-o ao voo da emoção. A poesia não é apenas uma maneira de habitar o mundo, é também uma forma de ampliar a compreensão da realidade a níveis mais profundos”.

Com mais de 30 volumes de poesia publicados no estrangeiro, Valeriu Stancu encarou a atribuição da distinção Josefa d’Óbidos como uma “obrigação de escrever melhor, pela literatura, pela poesia” e por si próprio. “Este prémio tem uma qualidade extraordinária e foi atribuído a dois escritores muito conhecidos, dos dois lados do mundo. Acaba por ser um prémio universal”, observou.

“Foi a poesia que nos uniu, através deste prémio. Estou muito feliz, e vou continuar a escrever e a trabalhar pela poesia, para a tornar mais conhecida”, prometeu Valeriu Stancu. “É preciso espalhar a poesia no mundo. O mundo sem poesia é muito pobre”, acrescentou um dos poetas contemporâneos mais lido, que está pela segunda vez no FÓLIO, cuja qualidade o deixou “impressionado”.

Homenagem a Josefa d’Óbidos

Presente na cerimónia, Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago, enalteceu Josefa d’Óbidos, nascida em Sevilha, tal como ela, lamentando não ter sido devidamente reconhecida na sua época, o que a levou a criticar o facto de, nas fotografias oficiais, só aparecerem homens, sob o pretexto de que não havia mulheres pintoras, o que disse não ser verdade. E destacou como uma das suas principais obras “Maria Madalena consolada pelos anjos”, de 1679.

“Josefa d’Óbidos não pintava guerras. Pintava naturezas mortas, mulheres de distintas classes sociais, música, poesia e flores”, sublinhou Pilar del Río, o que não era valorizado num “mundo de homens”. “Como pertencia a uma família rica, quando morreu, aos 54 anos, deixou a herança aos membros femininos da família. Terá sido uma protofeminista? Não sei. Não me interessa o que dizem os críticos”, afirmou.

Reconhecida pela atribuição da distinção, criada este ano, a poeta Adriana Hoyos também destacou o facto de ter o nome de Josefa d’Óbidos, que caracterizou como “uma das grandes figuras do barroco português e uma das mulheres que conseguiu alcançar, na sua época [século XVII], um lugar destacado na história da pintura”. Disse ainda que o nome da pintora simboliza o “talento de todas as mulheres que, ao longo dos séculos, tiveram de abrir caminho em territórios reservados a homens”.

Poesia universal

A propósito do tema “Para além da pele”, escolhido este ano para o festival literário, Maria João Cantinho, poeta e uma das curadoras do Dia da Poesia no FÓLIO, considerou “profundamente justo” reunir a poesia em Óbidos. “A pele é aquilo que nos delimita e, simultaneamente, aquilo que nos põe em contacto com o mundo. É fronteira e é passagem. Talvez por isso a poesia possa ser pensada como uma arte de atravessar fronteiras e também línguas”, observou. E anunciou a presença de poetas de Portugal, Espanha, Honduras, México, França e Roménia, cuja experiência comum será partilhada no encontro. “A poesia não precisa de uma língua única para existir. Ela precisa de uma escuta”.

“Saramago ensinou-nos, através da sua obra e da sua intervenção cívica, que a literatura não deve fechar-se sobre si mesma. Que escrever é também uma forma de interrogar o mundo, de olhar o outro, de pensar a responsabilidade, a liberdade e a condição humana”, recordou Maria João Cantino. “E, neste lugar, que hoje é também a Casa José Saramago, essa presença torna-se ainda mais significativa”, sublinhou.

São ainda curadores do Dia da Poesia os poetas José Manuel de Vasconcelos e Lauren Mendinueta.

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