FÓLIO 2026 | Joaquim Chissano em Óbidos para dialogar e aprender

Joaquim Chissano, antigo presidente da República de Moçambique, esteve este domingo na Câmara de Óbidos, a assistir à entrega do Prémio Fernando Leite Couto ao escritor moçambicano Crimildo A. Matola, pelo livro “O último segredo da nação” que, segundo o autor, “representa a luta pela liberdade e pela paz”.

De visita ao nosso país e com paragem em Óbidos para dar a conhecer a Fundação Joaquim Chissano, dialogar e aprender, o ex-presidente disse buscar a paz e uma vida digna para os povos. “Queremos o desenvolvimento humano”. “A cultura é fundamental, mas há pessoas que pensam que cultura é desenho, pintura, escultura, arquitetura. Mas nós, na Fundação Joaquim Chissano, entendemos que a cultura não se pode alcançar se formos ver apenas esses objetos”, afirmou o antigo presidente da República de Moçambique. “A cultura é a vivência dos homens. É tudo que se passa entre nós, e na sociedade. E isso só se pode conhecer com o convívio”, justificou.

Aos 86 anos, Joaquim Chissano assumiu que a comitiva de Moçambique está em Portugal para aprender, e acredita que vão nascer projetos a partir do diálogo com o presidente da Câmara de Óbidos, Filipe Daniel, iniciado em Maputo, quando o autarca visitou o país, em junho, e ao qual querem dar continuidade na vila literária.

Após terem estado em Cascais, preparam-se ainda para ir a Coimbra. “Comecei com a cultura, porque é muito importante para a paz. E a paz é a base da humanidade”, explicou.

“A tecnologia é utilizada para fazer guerras, para matar muita gente, através da inteligência artificial, mas queremos utilizá-la para trazer harmonia, paz, progresso e uma vida digna”, acrescentou Joaquim Chissano. “Precisamos de milhões de dados para ensinarmos as crianças e para lhes darmos conhecimento mais rapidamente”, explicou.

Filipe Daniel reconheceu em Chissano “uma figura maior da história de Moçambique e uma voz de referência no compromisso com a paz, o diálogo e a reconciliação”. Considerou assim que, ao associar-se à cerimónia, “honra a cultura moçambicana, prestigia os seus criadores e confere especial significado ao caminho de cooperação” que tem vindo a ser construído. “A sua presença reconhece também que uma comunidade de pequena dimensão pode participar num diálogo internacional relevante e duradouro”.

“A geografia coloca-nos a milhares de quilómetros de distância. A cultura permite-nos conhecer o que essa distância, por si só, nunca revelaria. Ligam-nos a língua portuguesa, os encontros entre os nossos povos e uma história que importa conhecer em toda a sua complexidade”, afirmou Filipe Daniel. “Une-nos, sobretudo, a possibilidade de escolhermos o que queremos construir em conjunto, com respeito pela identidade, pela autonomia e pelas aspirações de cada comunidade”.

Dar visibilidade a novos escritores

O Município de Óbidos tem uma parceria, desde 2017, com a Fundação Fernando Leite Couto, orientada para a valorização da literatura moçambicana, apoiando novos autores e aprofundando a cooperação cultural. “Ao apoiar a criação e ao dar visibilidade a novas vozes, contribui para que o talento encontre leitores, interlocutores e condições para crescer”, afirmou o autarca. “A residência literária em Óbidos dá-lhe uma expressão particularmente valiosa, ao proporcionar ao escritor tempo e espaço para criar, conhecer o nosso território e estabelecer contacto com a comunidade”.

No próximo sábado, dia 17, o FÓLIO integra na sua programação o Dia de Moçambique, através da apresentação de quatro livros de autores locais: Daniel David, Rui Motty, Otildo Justino Guido e Stewart Sukuma. “Queremos que cada encontro dê origem a outros encontros e que cada oportunidade de leitura desperte a vontade de conhecer mais”, referiu Filipe Daniel.

Quanto a Crimildo Matola, manifestou o desejo de que o Prémio Fernando Leite Couto seja um “estímulo para continuar a escrever com liberdade e exigência, fiel ao seu olhar e àquilo que entende ter para dizer”.

Rui Moreira de Carvalho, presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique, desafiou Crimildo Matola a “pensar maior do que somos, quer portugueses, quer moçambicanos”, e destacou Óbidos. “Vamos fazer um filme da viagem a Portugal e vai ser um exemplo de como se consegue fazer e fazer bem”, sublinhou. A este propósito contou que, quando Joaquim Chissano perguntou a Filipe Daniel como é que uma vila com poucos habitantes conseguia fazer tanto, o autarca “respondeu de forma sábia: trabalhando e fazendo trabalhar”.

Crimildo Matola revelou que “O último segredo da nação” é um resumo da história de Moçambique, nos anos 50 e 60, na caminhada rumo à independência, e representando a luta pela liberdade e pela paz.

Satisfeito por estar no festival literário de Óbidos a “celebrar as culturas moçambicana e lusa, unidas pela língua portuguesa”, evidenciou a importância da residência literária no seu percurso de “grande construção”, e agradeceu o prémio a todas as entidades, em especial a Rui Moreira de Carvalho, por “permitir a maior circulação do livro em Portugal e não só”, e ao dar um “empurrão” à literatura moçambicana.

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