Prémio Nacional de BD distingue Carreira, Obra do Ano e Inovação

A Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas atribuiu, este ano, pela primeira vez, o Prémio Nacional de Banda Desenhada a António Jorge Gonçalves (Prémio Carreira), a Luís Moreira Gonçalves e a Felipe Parucci (Prémio Obra do Ano), autores de “Dormindo entre cadáveres”, e a Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nóvoa, Hugo Soares e Diogo Jesus (Prémio Inovação), autores de “Rumo ao eclipse”. Quatro dos vencedores estiveram, este sábado, 10, à conversa no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, sobre a importância da Banda Desenhada (BD).

“Um prémio é sempre importante, embora a natureza da arte não seja competitiva. Significa que houve um júri que decidiu distinguir aquela pessoa”, reagiu António Jorge Gonçalves. “Mas é claro que não posso deixar de me sentir feliz por esse prémio ter distinguido o meu percurso. É um instrumento muito importante para dar visibilidade ao meu trabalho e um reconhecimento institucional”, observou. “Não se trata de dizer que uma arte é mais importante do que a outra, mas de dizer que ela existe e que merece ser vista”.

Satisfeito com a atribuição de um prémio de dez mil euros, que lhe permitirá “pagar as contas”, António Jorge Gonçalves disse que, para haver trabalho, é preciso que as pessoas o reconheçam. “A BD está na base da pirâmide social das artes”, defendeu. Entre as obras publicadas, destaca “Dita Dor”, livro sobre a sua infância durante a ditadura, que recebeu vários prémios. “Sinto que há uma janela que se abre para várias gerações sobre uma época da nossa História e uma reflexão sobre a maneira como nos organizamos em comunidade, em sociedade e politicamente, deixando uma espécie de mensagem para o futuro”.

“Suspeito que estará, de alguma forma, sempre muito atual, porque o totalitarismo é sempre uma tentação. Aquele modelo em que uma pessoa manda e os outros baixam as orelhas parece que ‘funciona’ sempre”, observou o autor de BD. “Às vezes, há obras que sentimos que são muito maiores do que nós e, de alguma forma, pelo feedback que tive desse livro, sinto que o papel que pode ter no mundo está muito para lá daquilo que foi a minha história em particular”.

Olhares diferentes sobre BD

Ao contrário de Pedro Moura, curador do FÓLIO BD, o vencedor do Prémio Obra do Ano, Luís Moreira, discordou da ideia de que a BD não é levada a sério. “Em pequeno, via vinhetas da Mafalda serem discutidas de forma séria, como se fossem um soneto de Camões”, recordou. “As coisas estão a mudar, à medida que aparecem melhores trabalhos, com a BD a ocupar outros espaços”, afirmou. “O meu livro tem sido tratado como literatura”.

Ana Matilde Sousa ilustrou a narrativa gráfica bilingue “Rumo ao eclipse”, integrada num projeto de comunicação de ciência de 2019. “A BD é muito usada para divulgar projetos científicos”, assegurou. “Em 2023, adicionámos mais 16 páginas, porque a ciência é um processo dinâmico, e tivemos bastante reconhecimento internacional”, afirmou, sem imaginar que a obra seria premiada. “Pensámos em fazer um role play [troca de papéis], em que o jogador encarna a personagem e o objetivo é chegar à Ilha do Príncipe a tempo de ver o eclipse”.

Coube a André Nóvoa, designer de jogos analógicos, materializar a ideia. “A BD tem feito esse percurso de ser percecionada como mero entretenimento infanto-juvenil para ser levada mais a sério. Está a acontecer a mesma coisa nos jogos”, garantiu. “São encarados como uma expressão artística capaz de expandir infinitas narrativas, que cruzam com performance e com teatro”, explicou. “Este prémio é muito importante, porque ajuda a fazer este percurso”, referiu, apesar do sucesso desta indústria.

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