Óbidos lança Babel Classroom, plataforma tecnológica que promove a inclusão linguística nas salas de aula

O Município de Óbidos apresentou sexta-feira, 5, a solução Babel Classroom, uma plataforma tecnológica inovadora de apoio linguístico em contexto escolar, concebida para promover a inclusão de alunos de língua não materna e reforçar a equidade no acesso à aprendizagem.

A solução, resultado de uma parceria entre o Município de Óbidos, o Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, o Parque Tecnológico de Óbidos e uma das empresas do seu ecossistema, a ImpactWave, foi desenvolvida a partir de uma necessidade identificada pelos próprios professores, confrontados diariamente com os desafios da integração de alunos recém-chegados ao sistema educativo português.

A Babel Classroom permite ao professor lecionar normalmente em português, enquanto a sua intervenção é automaticamente transcrita e traduzida em tempo real para até quatro idiomas em simultâneo. A informação é disponibilizada numa segunda janela visível para os alunos, facilitando o acompanhamento das aulas e promovendo uma participação mais ativa no processo de aprendizagem.

Incorpora funcionalidades de Inteligência Artificial adaptadas ao contexto educativo, permitindo corrigir transcrições, adequar linguisticamente conteúdos, e apoiar uma comunicação mais eficaz em sala de aula. A solução é complementada por um equipamento discreto, incluindo microfones Bluetooth com cancelamento de ruído, concebidos para integrar naturalmente a dinâmica pedagógica.

Diversidade cultural crescente

A plataforma surge num contexto de crescente diversidade cultural nas escolas da região Oeste, onde estão representadas cerca de 50 nacionalidades. Entre elas, África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Bangladesh, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Chequia, Chile, China, Colômbia, Egito, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos da América, Rússia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, México, Moldávia, Nepal, Países Baixos, Paquistão, Polónia, Reino Unido, Roménia, São Tomé e Príncipe, Suécia, Suíça, Ucrânia, Venezuela, Paraguai, Índia, Noruega, Bolívia, República Dominicana, Estónia, Finlândia, Grécia, Japão e Marrocos.

Em Óbidos existem atualmente cerca de 200 alunos das mais diversas geografias, uma realidade que tem colocado novos desafios à integração linguística e ao sucesso educativo.

“As nossas escolas são hoje mais diversas. Temos alunos que chegam de outros países, que falam outros idiomas e conhecem outras culturas. Isso não é uma ameaça. É uma realidade do nosso tempo e pode ser também uma riqueza para as comunidades, desde que saibamos responder bem”, afirmou Filipe Daniel, presidente do Município de Óbidos, durante a sua intervenção.

“O Babel Classroom não vem substituir o professor” nem “a aprendizagem da língua portuguesa”. “Vem ajudar a construir uma ponte. O professor continua a dar a sua aula em português. O português continua a ser a língua de ensino. Mas, ao mesmo tempo, o aluno que ainda não domina a língua pode acompanhar melhor o que está a acontecer na sala. Pode compreender a matéria. Pode participar mais. Pode sentir-se menos perdido. Pode estar verdadeiramente dentro da turma”.

Filipe Daniel sublinhou ainda a importância de a solução ter sido desenvolvida a partir do território, e em estreita ligação com a comunidade educativa.

“Este projeto mostra que, a partir de um território de menor dimensão, também é possível criar soluções relevantes e com ambição global. Liga a escola ao Parque Tecnológico, professores a programadores, e uma necessidade local a uma solução que poderá ser útil em muitas outras escolas e comunidades”.

A plataforma foi testada durante três semanas em contexto real por professores do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, em diferentes disciplinas e turmas, permitindo validar o seu potencial como ferramenta de apoio à inclusão, ao acompanhamento pedagógico, e que é, simultaneamente, “potenciadora de equidade”, como afirmou José Santos, diretor do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos.

“Hoje em dia, num contexto de diferenciação pedagógica, de personalização da aprendizagem, de potenciar a igualdade de oportunidades, nós, escolas, nós agrupamentos, somos colocados à prova. Tentamos operacionalizar as ideias, mas devido ao peso da burocracia, à falta de tempo, às constantes alterações que são necessárias para atingir esse fim, por vezes ficamos limitados”, lamentou. E é nesse cenário que o Babel Classroom assume particular relevância. “Garante equidade, a individualidade do ensino, e a personalização dos processos de forma célere, eficaz e simples. Não só para o professor, como também para os alunos”.

Para o responsável, outros contextos de escola podem vir a beneficiar desta solução, como é o caso dos Planos de Inovação, dos Projetos de Autonomia e Flexibilidade, ou do Plano Nacional de Leitura.

José Santos sublinhou ainda que a criação desta plataforma só foi possível graças a um trabalho colaborativo exemplar, assente num relacionamento de grande proximidade, confiança e respeito mútuo entre todos os intervenientes envolvidos no projeto.

Uma tecnologia de proximidade

Desenvolvida para que pudesse ser utilizada por todos os professores em várias turmas, segundo Ricardo Cardoso, CEO da ImpactWave, esta solução tem como grande objetivo “manter o aluno estrangeiro dentro da turma e a turma dentro do programa”. Foi criada de raiz para escalar a nível global, podendo ser, a esta altura, utilizada no mundo inteiro por milhões de alunos.

Presente também na sessão de apresentação da plataforma, Nuno Gaio, diretor executivo do Parque Tecnológico de Óbidos, não poupou elogios à solução, ao potencial humano e colaborativo, e à capacidade que o território tem de responder a desafios reais. Com talento local e para a comunidade.

“A verdadeira medida de um parque tecnológico não é a complexidade daquilo que produz. É a relevância daquilo que resolve. Um parque não vale pela distância a que chega a sua tecnologia. Vale pela proximidade com que responde às necessidades de quem o rodeia. O Babel Classroom é, por isso, tecnologia de proximidade. Feita aqui, com quem cá está, para quem cá vive. E essa proximidade não é uma limitação. É a maior força deste modelo”, sublinhou.

“Educação, agricultura, indústria, gaming, saúde, turismo e biotecnologia. A pergunta deixa de ser ‘que tecnologia conseguimos criar?’ e passa a ser ‘que problema, ou que ambição, do nosso território, conseguimos concretizar?’ É essa inversão que define o parque que queremos ser. E que ninguém confunda proximidade com falta de ambição. Provámos que se pode estar enraizado neste território e, ao mesmo tempo, ser referência muito para além dele”.

Para Ana Sofia Godinho, Chefe de Divisão de Educação do Município de Óbidos e presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, a solução Babel Classroom é resultado de uma “maturidade coletiva”, mas acima de tudo da “capacidade de transformar problemas concretos em soluções concretas”.

“Quando a escola fala, a comunidade escuta e o território se mobiliza, conseguimos transformar desafios em soluções. Esta plataforma não substitui o professor, o esforço ou a relação humana. Mas ajuda. Ajuda a incluir, a compreender e a garantir que nenhum aluno fica para trás só porque nasceu noutro lugar ou fala outra língua”.

A sessão de lançamento e apresentação pública da solução contou também com uma demonstração feita pela professora do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, Soraia Benjamim, que simulou a utilização da plataforma a partir do momento em que inicia uma das suas aulas.

Para a docente, a solução melhorou significativamente a dinâmica em sala, e trouxe um verdadeiro sentimento de inclusão e de acolhimento.

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