FÓLIO 2026 | “Os livros podem ser um ato de resistência quando tudo está a desmoronar-se” – Rachid Benzine

O escritor marroquino, 55 anos, diz que “Israel perdeu a alma” e que “o que colapsou em Gaza foi o direito internacional”. Apesar de saber que iria sofrer de “morte social” em França, onde vive desde os 5 anos, por escrever sobre a Palestina, esclarece que o seu ato é literário e político. “Esta história tem o direito de existir”, defende, para haver pluralismo, lembrando que o conflito não começou a 7 de outubro de 2023, com o ataque a Israel, mas em 1948, quando 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras. Para pôr termo às hostilidades, considera que tem de se quebrar o ciclo da violência, através do perdão, como sucedeu em África do Sul com Mandela e na Índia com Gandhi.

Em “O homem que lia livros”, Nabil Al Jaber encontra na literatura um refúgio, enquanto casas e vidas se vão desmoronando à sua volta. Os livros podem ser encarados como um antídoto para os dias que correm?

Os livros podem ser um ato de resistência quando tudo está a desmoronar-se. Quando se está num contexto de guerra ou de ditadura, querem proibir os livros porque são o lugar da imaginação, o lugar do encontro, e também a possibilidade de pensar o mundo de forma diferente. Num contexto de guerra, especialmente para Nabil Al Jaber, em Gaza, os livros não podem parar as bombas e a destruição de corpos, mas permitem a cada um de nós preservar uma liberdade interior, que qualquer poder, seja ele qual for, não nos pode tirar. E é essa liberdade interior que temos de trabalhar. Temos muitos testemunhos de pessoas em ditaduras ou em prisões que resistiram lendo poemas todos os dias. As palavras dos outros acabam por nos salvar.

Nabil oferece ao repórter fotográfico “A Condição Humana”, de André Malraux e “La Terre Nous Est Étroite et Outres Poèmes”, de Mahmoud Darwish [poeta palestiniano]. Escolheu estes livros por serem obras de referência para si?

Sim. Mas quando Nabil Al Jaber as dá ao jornalista, diz-lhe para ler primeiro “A Condição Humana”, de Malraux, e depois os poemas de Mahmoud Darwish. O autor francês escreve sobre a condição humana, fala-nos da guerra, da revolta e conta-nos toda a violência. E, por outro lado, há a poesia, palavras que nos desligam da vida quotidiana, para nos dar uma forma diferente de ver e de habitar o mundo. Quando se lê poesia, o mundo torna-se harmonioso. É como se Nabil Al Jaber dissesse ao jornalista que, na vida, vai precisar de ambos. Vai precisar de romances, de palavras que lhe digam a dureza da vida, da guerra, da violência, da tragédia, mas também vai precisar de palavras que o acompanhem na vida face a essa realidade. Precisamos de ambos.

O que quer dizer com a frase “Os livros também escolhem os seus leitores”?

Quando se entra numa livraria, para ver ou comprar livros, de repente, tem-se a impressão de que há um livro que nos está a chamar, sem que se tenha pensado nisso. Gosto de acreditar que os livros também são atores, que também são temas que nos interpelam. E essa é a beleza de entrar numa livraria. Por vezes, compramos livros que não pensávamos comprar de todo.

Os jornalistas são várias vezes criticados, no seu livro, por escolherem mostrar soldados do Hamas a gritar, a ameaçar e a matar, o que o leva a ironizar, dizendo: “uma tranquilizadora imagem para a boa consciência do Ocidente”. As imagens recolhidas e os acontecimentos relatados dão uma imagem errada deste conflito?

No trabalho jornalístico, há também a exigência do editor-chefe e do próprio jornal, pois estão presos a uma lógica de mercado, em que o jornal tem de se vender. E as pessoas também são mais atraídas por desastres, que reconhecem, porque já os viram, do que pela vida quotidiana. Por que só mostram o espetáculo da violência? O que nos atrai para um ponto de vista negativo? Por que não nos interessa a vida comum? A vida comum é o mais importante. E é por isso que o jornalista, quando vê o livreiro a ler entre campos de ruínas em Gaza, diz para si: “esta imagem é sobrenatural”.

E, ao mesmo tempo, é a sua vida diária. Este homem todos os dias abre a sua livraria, lê e espera pelos leitores. Essa fotografia diz muitas coisas. E é uma crítica à relação que temos com a imagem, que só nos dá as representações que reforçam o que pensamos. Será possível continuar a ser jornalista quando tudo depende do mercado económico e financeiro? Na televisão, também tem de haver polémica, contestação e espetáculo, para que possa vender. É uma crítica que faço tanto aos jornalistas como a nós próprios, porque também procuramos estas imagens. As notícias televisivas começam primeiro com as catástrofes.

Raramente, há um jornal a dar boas notícias. As notícias tornaram-se um campo onde se apela, cada vez mais, à emoção e ao medo. O problema é que, ao vermos isto, temos a impressão de que o mundo é feito apenas de violência. Houve menos mortes do que na Segunda Guerra Mundial, mas temos uma representação de que a violência é omnipresente.

Há uma normalização da violência?

Sim, há uma normalização da violência, mas também uma amplificação, porque agora a imagem é duplicada nas redes sociais. Há um fenómeno viral e ficamos com a impressão de que é tudo o que vemos. E quando os algoritmos nos dão exatamente isso, só vemos o mundo através do prisma desses óculos.

Na Mesa “Fronteiras”, no FÓLIO, disse que a literatura é o lugar da imaginação, e não da empatia, mas também sublinhou que veicular o relato dos palestinianos é termos direito à pluralidade, sob pena de a memória ser apagada. É possível escrever sobre estes assuntos sem se posicionar, mesmo que de uma forma subtil?

Interessa-me escrever sobre narrativas que são invisibilizadas e sobre os silêncios, mas também silêncios entre pessoas, porque deixam espaço para a imaginação. A pergunta que me coloco é: por que motivo, depois de 7 de outubro de 2023, se tornou a narrativa palestiniana inaudível em França? Ouvimos narrativas israelitas, vimos os mortos. Tinham um rosto, um corpo, uma história. Do outro lado, não havia história, nem corpo. Até houve um apagamento da memória e da narrativa. Na televisão, os palestinianos tanto são considerados terroristas como vítimas. É uma máscara global com o número de mortos. Contar a história, mesmo que de um só homem, incomoda, mas haver 570 ou 600 mil pessoas em sofrimento não percebem o que significa. Por isso, foi muito difícil poder falar sobre a narrativa palestiniana. Quando o meu livro saiu, foi o único da temporada literária que falou sobre Gaza, porque há algum tempo que falar de Gaza em França significa a morte social.

Teve problemas?

Sim, uma espécie de anulação. Deixei de ser ouvido. Tornou-se problemático. Se fosse à televisão, tinha de dizer certas coisas antes de poder falar. Mas se quisesse contar a história do sofrimento dos israelitas, podia. Havia uma espécie de desigualdade em termos de acesso e de pluralidade de narrativas.

Escrever sobre a Palestina é tanto um ato literário, como político. É também uma forma de dizer que esta história tem o direito de existir. O conflito não começou a 7 de outubro de 2023, mas em 1948. E em França, em alguns meios de comunicação, as pessoas só queriam o 7 de outubro. Não tinha o direito de criar uma história, de tentar explicar, porque, para eles, explicar era justificar.

No entanto, em momento algum, justifico as coisas. Tento explicar o que nos faz chegar a esta situação. O que nos faz aceitar a violência sobre os corpos dos palestinianos? O que aconteceu? O que nos faz chegar à desumanização do outro? O trabalho que tentei fazer foi reumanizar. Onde há desumanização, ponho humanização. E como o faço? Conto a história de um livreiro, nascido em 1948, que perdeu tudo.

É uma fábula sobre a história deste homem, o seu amor pelos livros, mas também conto a odisseia palestiniana, a história deste povo, a história desta identidade, a história desta memória, a história desta cultura. E como na sua livraria podem encontrar-se livros de todo o mundo, é como se pudessem dialogar entre si, quando os homens não conseguem.

Acredita que Benjamim Netanyahu foi avisado do ataque de Hamas de 7 de outubro de 2023, mas não o impediu, para gerar um sentimento de revolta na população israelita e justificar os ataques destinados a dizimar o povo palestiniano?

Os elementos que temos mostram que Netanyahu tinha informação, particularmente da Jordânia, a dizer que estava a ser preparado um ataque a Israel. Se estava ciente da escala, não sei. Mas não podemos dizer que não soubesse. E, quando olhamos para alguns textos, concluímos que esta ideia de não querer um Estado palestiniano não data de 7 de outubro. A política israelita mostra que a ideia de um Estado palestiniano nunca foi real.

Esta guerra tem por trás questões religiosas ou territoriais?

O que está a acontecer é, antes de mais, político. É uma política colonial. Na Cisjordânia, temos colonos que querem desalojar os palestinianos das suas terras. O que aconteceu em 1948 continua a acontecer hoje, porque existe uma espécie de impunidade internacional, e os fortes tendem a tornar-se bárbaros. E se o direito internacional não armar os mais fracos, em termos de direitos, os fortes tendem a esmagar os mais fracos. Quando a lei deixa de ser aplicada aos poderosos torna-se tirânica.

Uma Comissão de Inquérito da ONU concluiu, há dois anos, que altos responsáveis de Israel estavam a incitar o genocídio em Gaza e, dois meses depois, o Tribunal Penal Internacional mandou deter os líderes de Israel e do Hamas, por crimes contra a humanidade. Dado que tal não sucedeu, não é um descrédito para a Justiça?

Esta é a grande tragédia que estamos a testemunhar. Temos grandes instituições internacionais que supostamente aplicam a lei, mas assim que se chega a esta região há exceções, em termos de direito. O que colapsou em Gaza vai além de Gaza. O que colapsou em Gaza foi o direito internacional. Tudo colapsou, tudo caiu em ruínas. Hoje, é muito difícil dizer às pessoas que têm de fazer isto, porque a lei o determina. Houve uma lei que não foi aplicada e assistimos a um genocídio. O mais recente documentário, “Nasa”, mostra bem como os ataques foram organizados, dentro do exército, para atingir as crianças e as famílias, apesar de muitas pessoas estarem em negação. A tragédia que aconteceu também mostra a nossa impotência para mudar a realidade. Se o direito internacional já não pode funcionar, o que pode funcionar?

Israel é um país demasiado poderoso?

Não, Israel é apoiado pelos Estados Unidos. Quem critica Israel e o seu governo, na verdade, tem medo dos Estados Unidos. É assim há muito tempo. Mesmo que Israel ganhe a guerra, como dizem, Israel perdeu a alma. Está a ganhar territorialmente com armas, mas perdeu a humanidade.

Mas há muitos israelitas que não gostam de Netanyahu…

Sim, há. Mas, a população pode estar a favor do governo porque tem medo. Não conseguimos compreender as reações de um certo número de israelitas, se não tivermos em conta a ideia do Holocausto. Há dois traumas. Há o trauma do Holocausto para os judeus, e a Nakba [expulsão dos palestinianos e destruição de centenas de aldeias, durante a criação do Estado de Israel, em 1948] para os palestinianos. O Holocausto precipitou a necessidade de ter um lar para onde fossem os judeus de todo o mundo, para serem protegidos. E expulsaram e tomaram as terras de 700 mil palestinianos. Houve brutalidade, mortes, deslocações, refugiados. Foi uma grande catástrofe. Os europeus criaram a ideia de que palestinianos são a consequência global da Shoá [genocídio de cerca de seis milhões de judeus pelos nazis]. Não conseguimos combater o sofrimento e o trauma para criar espaço entre os dois Estados. Mesmo ao nível do direito internacional, a ONU tomou várias resoluções contra os governos de Israel, que nunca foram aplicadas.

Como é que se põe fim a esta sede de vingança dos dois lados?

A única forma é renunciar ao direito à violência. Historicamente, mostrámos isso. Mandela, Gandhi e Jesus Cristo tornaram possível quebrar o ciclo da violência, através do perdão. Mas, o perdão só é possível se houver justiça primeiro. Se não se perdoar, é como se a memória repetisse o ressentimento e o sofrimento. Mas, por vezes, é difícil perdoar.

No FÓLIO, mencionou existirem diferentes interpretações do Islão, dando como exemplos Marrocos e Afeganistão, resultantes da subjetividade perante os textos, tendo recomendado olhar para as práticas das pessoas. É inevitável existir um choque entre conservadores e liberais ou podem coexistir no mesmo espaço, respeitando as suas diferenças?

Há progressistas e conservadores em todos os países, mesmo no que toca ao Cristianismo. A questão é aceitar a pluralidade. Não é impor a própria visão das coisas. Os liberais não devem impor a sua visão aos conservadores. Os conservadores não devem impor a sua visão aos liberais. Isso chama-se respeito. A sociedade necessita desta pluralidade.

O diálogo inter-religioso tem sido malsucedido na busca da paz?

Não sei se a vocação do diálogo inter-religioso é a paz. O diálogo inter-religioso foi importante, antes de mais, na vida quotidiana. Participei nesse diálogo, e continuo a fazê-lo. É para que as pessoas possam conhecer-se um pouco melhor. A paz está no horizonte. É preciso respeitá-la, procurá-la. Por vezes, não a alcançamos, caímos, outras vezes temos de nos reerguer. Mas é melhor haver diálogo do que não haver diálogo de todo.

Qual é a responsabilidade dos líderes dos países em conflito?

A responsabilidade é enorme dos dois lados, mas os fortes têm mais responsabilidade do que os fracos. Quem tem poder tem mais responsabilidade, porque tem capacidade de poder fazer muito mais. E essa é a questão da solidariedade. Mesmo após os ataques de 7 de outubro, Netanyahu podia ter reagido de outra maneira, em vez de se vingar. Os Estados Unidos disseram-lhe: “não faças o que fizemos depois do 11 de setembro [2001], porque entrámos em ciclos, e não saímos deles”.

Disse que vamos pagar o preço daquilo que aconteceu em Gaza, porque ninguém interveio, e toda a documentação revela essa desumanização, pelo que temos de ter a capacidade de dizer que fracassámos. A responsabilidade é coletiva?

É uma responsabilidade coletiva, pois temos obrigações em relação aos outros seres humanos. Responsabilidade coletiva e solidária com o que acontece no mundo. Somos responsáveis, mas isso não significa que somos culpados. Temos de responder pelo que acontece no mundo coletivamente.

Referiu ainda que, enquanto antes havia uma política do acolhimento, agora temos uma relação de desigualdade, pois a fronteira tornou-se política, ao selecionar as pessoas que podem entrar no nosso país para colmatar as nossas dificuldades, dando como exemplo os médicos. O homem age sempre por interesse?

Espero que os seres humanos não ajam apenas por interesse e também possam agir por hospitalidade. Nos textos bíblicos e no Alcorão, temos esta ideia de acolher o outro, de acolher o estrangeiro. O estrangeiro como convidado de Deus. É uma tradição. A palavra fronteira num gesto do corpo é a testa, que pode estar mais relaxada ou mais tensa em frente ao outro. Hoje, a testa está bastante crispada. E, no entanto, não hesitamos em ir a esses países buscar os melhores recursos para o nosso desenvolvimento.

Há desigualdade de corpos, porque tu e eu, com o nosso passaporte, podemos viajar por todo o mundo. Mas, do outro lado, em África, as pessoas não podem viajar. Temos de perceber que essa liberdade não é igual para nós e para eles. E depois há esta zona mediterrânica que, para nós, pode ser para férias e, para outros, é o lugar onde está a morte. E por isso essas fronteiras tornaram-se políticas.

É também um equilíbrio de poder, uma forma de definir a identidade de cada um. Durante muito tempo, Portugal não fez parte da União Europeia, tal como Espanha. Por isso, não beneficiou da ajuda europeia. Depois, ao integrar a União Europeia, ficou com a possibilidade de se deslocar sem pedir visto. Isso mudou a vida dos portugueses. Vivo em Trappes [subúrbio na periferia de Paris] e, no final dos anos 70, início dos anos 80, tinha amigos portugueses, que eram emigrantes como eu. E desde o momento em que Portugal passou a fazer parte da União Europeia, do espaço Schengen, a representação dos portugueses mudou completamente. O que é que essa fronteira faz? Vemos o que faz aos migrantes.

Other Articles