FÓLIO 2026 | “Deixemos as pessoas serem exatamente o que elas são”
Docente na Universidade Lusófona, Daniel Cardoso relatou este domingo, 11, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, a forma curiosa como é olhado quando entra na sala de aulas pela primeira vez. “Ou pensam que não tenho o aspeto certo para ser professor, porque tenho tatuagens ou levo vestido, ou que sou aluno”, contou, durante a palestra “Diversidade de género e sexualidade”. “A primeira pergunta que lhes faço é: O que é uma mulher? Começam a tentar dar explicações, e eu vou colocando mais questões, até que chegam a um ponto em que ficam sem resposta”, revelou.
“Chamo-lhes a atenção para esses ângulos mortos ou buracos cegos. O meu trabalho é dar-lhes ferramentas para fazerem as melhores perguntas”. “Se a premissa é tenho de ser homem ou mulher, basta a pergunta: Será? E a pessoa perde o chão”, assegurou Daniel Cardoso. “A pergunta em si mete-lhes medo, e é compreensível que a queiram empurrar para longe de si”, observou.
“Hoje, quem fala mais nestas questões são os movimentos de extrema-direita, porque oferecem uma resposta a este medo. Mas, se calhar, precisamos de ficar com a incerteza e de pensar como é que a nossa certeza já é uma forma de violência que praticamos sobre nós”, comentou. “No Estado Novo, era recorrente a polícia ir às casas de banho públicas prender homens, que pagavam para ser libertados. Na verdade, não havia desejo de acabar com a homossexualidade, mas era uma fonte de rendimento”.
Assumindo-se de género não binário, o docente universitário doutorado em Ciências da Comunicação aconselhou a olhar para esta questão numa perspetiva histórica. “Há 60 ou 70 anos, uma mulher que usasse calças era drag. Como é que conseguimos ver o mundo à nossa volta, não a partir da forma como achamos que as pessoas deviam fazer, mas como gostaríamos de ter feito ou descobrir que, afinal, ainda vamos a tempo?”, questionou. “É dentro desta lógica que podemos combater a instrumentalização do medo. Quem dá resposta ao medo, precisa do medo para agir contra nós. Temos de tornar esse medo uma forma de arte”, desafiou.
“Temos de ultrapassar este medo constante, que não é iminente, mas querem fazer acreditar que sim. Se nos deixarmos dominar pelo medo, vamos aceitar qualquer tipo de salvamento”, avisou Ivo Tavares, jornalista, cabeleireiro e transformista. Considerou, por isso, que quanto mais a diversidade de género for divulgada, menos as pessoas são enganadas. “Este medo pode trazer coisas bem complicadas”, admitiu. E fez uma analogia com o período do Estado Novo, para lembrar que também gostavam do “povo burro” e que não questionava. “Com papas e bolos se enganam os tolos.”
Desmistificar mentalidades
Ivo Tavares vestiu a pele de Betty Brown, a sua personalidade transformista, na sexta-feira à noite, durante um espetáculo de drag queen, no FÓLIO. “Houve momentos em que as pessoas não acreditaram no que estavam a ver. Saíram da sua realidade e sonharam um bocadinho”, observou. “A arte está patente em qualquer uma das vertentes da minha vida. Sou jornalista e sou cabeleireiro. A Betty trouxe-me a simbiose disto tudo”, explicou.
“Deixemos as pessoas serem exatamente o que elas são. Temos todo o direito de sermos como somos. Vai muito além do binário”, defendeu. “Há a necessidade de avançar e desmistificar mentalidades, que precisam de ver além do que elas acham”.
“Quando as clientes me dizem que têm um filho gay ou uma filha lésbica e me perguntam o que devem fazer, respondo-lhes: dar suporte, coragem e compreensão, porque quando as crianças sentem que têm suporte em casa, não permitem que os de fora lhes apontem o dedo”, sublinhou Ivo Tavares. E relatou que teve a sorte de contar com a compreensão dos pais, pois sabiam que ser transformista o deixava feliz.
“Enalteço o papel da mulher. Nunca considerei que essa parte do meu comportamento fosse desviante”, assegurou. “Sempre pautei a minha atuação por mostrar ao outro que uma pessoa pode optar por um determinado estilo de vida”.
Durante uma viagem à Índia, Ivo Tavares ficou surpreendido com a reação do povo. “Olham para os transformistas como um terceiro sexo, e acham que lhes vai trazer sorte. Perdi a conta às crianças que me foram colocadas no colo”, afirmou. “Como misturam a imagem masculina com a feminina, acham que estão mais perto das divindades. Não têm um olhar crítico, mas de gratidão”, esclareceu.
Daniel Cardoso acrescentou que “muita da ligação religiosa com figuras históricas reais não encaixavam numa lógica de género. Transcendiam o binarismo. Iam para lá da divindade”. Nesse sentido, disse que “num mundo como o nosso, construído com base na certeza do homem e mulher, a diversidade coloca em causa a nossa própria posição.”