FÓLIO 2026 | Michela Marzano avisa que mulheres “não podem tomar os direitos como adquiridos”

A escritora e professora universitária italiana Michela Marzano avisou que as mulheres “não podem tomar os direitos como adquiridos” e que, se não se baterem por eles, correm o risco de os perder. O alerta foi deixado esta sexta-feira, 9 de outubro, na mesa “Identidade” do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, a propósito do crescimento da extrema-direita em vários países da Europa – entre os quais Itália e Portugal – que menoriza a importância da mulher na sociedade.

“As contas com o passado não se fizeram em Itália. Se assim fosse, não teríamos uma fascista no poder”, afirmou Michela Marzano, a propósito da primeira-ministra Giorgia Meloni, que considera que “a mulher deve ficar em casa, calada, ter filhos, e deixar o espaço público para os homens”.

Defensora da necessidade de falar sobre o “fascismo” quando Mussolini era primeiro-ministro, e que não voltou a ser mencionado desde a II Guerra Mundial, a escritora acredita que “só através da cultura e da educação se podem mudar as coisas”.

Residente em França, Michela Marzano considera que a literatura é a melhor arma para combater a extrema-direita. “Há anos que não escrevo ensaios, porque os temas da fragilidade só podem ser encarnados por personagens de romances”, explicou. “O que não se pode argumentar, pode-se mostrar”, observou. No livro “Continuo à espera de que peçam desculpa”, a autora discute o movimento #MeToo, através de Anna, jornalista e professora universitária, ao abordar com as alunas o tema do consentimento ou da cedência à pressão.

A escritora italiana revelou que, através deste diálogo, Anna apercebe-se de que também foi vítima. “É uma tentativa de desconstruir estereótipos, muito presentes na sociedade, de culpabilizar a vítima, a sua vivência e as suas palavras, que demora muito tempo a reconhecer-se como vítima de abuso”, adiantou. Já as novas gerações conseguem dizer “eu quero” ou “eu não quero” perante o abuso de poder. “Este tema é fortemente político. Estamos a retroceder em muitos aspetos em Portugal, Espanha, Itália e França.”

“As vítimas são alvo de monstros. A maioria sofre violência dentro da família, da paróquia, da universidade, onde é mais difícil gritar ‘não’”, justificou a autora. “Temos de dar visibilidade ao silêncio das mulheres que não são reconhecidas como pessoas completas e com uma identidade própria”, defendeu. “Interessa-me contar a extrema vulnerabilidade do ser humano, como a perda de um filho, da memória ou da escuta”, comentou. “Estamos sempre no lugar da imposição. Há jovens que sofrem de distúrbios alimentares e se mutilam porque não suportam a pressão da identidade. Constroem à nossa volta uma prisão que não nos permite viver em fratura.”

Identidade imposta

Escritora e docente universitária argentina, Gabriela Cabezón Cámara confirmou que a identidade “complica” as vidas. “Acaba por nos colocar na situação de sermos quem somos. É-nos imposta uma identidade. Somos condenados a fazer os nossos papéis”, contestou. “A vítima é uma identidade que é preciso desmontar, em vez de ser quebrada”, observou a ativista dos direitos humanos e autora de “Meninas do laranjal”, em que aborda a identidade de género. “A identidade não se encerra. Tudo o que é vivo está em constante metamorfose. Somos o que vamos construindo, com o que se vai passando.”

“Nos meus livros, há sempre um centro onde está o poder e personagens que estão em diferentes periferias e são segregadas, mas constroem diferentes identidades, inventam vidas, outros meios de viver, reúnem-se, amam-se e odeiam-se”, explicou Gabriela Cabezón Cámara. “O centro é aceite pelos periféricos, ficando numa posição de uma certa inferioridade”, acrescentou. “Mas, as personagens não aceitam e fazem a sua própria festa”, garantiu.

A ativista dos direitos humanos aludiu à ditadura militar, entre 1976 e 1983, como “uma atrocidade”, e contestou o facto de apenas os militares terem sido julgados, quando havia “cúmplices na Argentina e no poder central que hegemonizava o poder”. “O problema é que alguns estão a tentar manter toda a riqueza e querem virar-nos uns contra os outros”, denunciou, referindo-se à ultra-direita. “50% de nós somos verdadeiramente pobres. Não sei até onde podemos ir”, observou, contestando a vitória de Bolsonaro na primeira volta. “Se a selva amazónica acaba, morremos todos. Estamos a ser sacrificados por esses tipos.”

“Os governos de ultra-direita detestam as pessoas da cultura, do cinema e da música”, assegurou Gabriela Cabezón Cámara. “A literatura permite-nos falar e trazê-lo à tona. Podemos escrever como se fosse em Marte. Podemos criar personagens dissidentes, mas estamos sempre a fazer política. Estamos a fazer alguma coisa”, vincou.

Elogiou ainda os espanhóis que vivem na rua em defesa da habitação e os franceses que se manifestam por uma melhor educação. “A brutalidade da conquista continua quando queremos tirar uma população do seu território e queremos a sua riqueza”, denunciou. Na sua obra, só se consegue travar esta situação através da ternura e do amor.

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