Ministro da Presidência, Leitão Amaro, desafia a “lutar por livros feitos por humanos”

O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, defendeu esta quinta-feira, 8, a importância de incentivar as crianças e os jovens a ler, em vez de procurarem “resumos” gerados pela inteligência artificial, na sessão de inauguração do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. E manifestou surpresa pela “falta de choque do país” após a divulgação do estudo PISA, em que se conclui que as competências dos alunos de 15 anos a Leitura, Matemática e Ciências voltaram a piorar.

Subscritor da restrição ou proibição dos telemóveis nas escolas, o governante entende que as crianças devem usar as redes sociais de forma “regrada”, e criticou a publicação de livros que não são escritos por humanos. Após recordar o alerta de José Tolentino de Mendonça para o risco de a inteligência artificial gerar o “empobrecimento da imaginação”, Leitão Amaro disse que ler permite aprender e conhecer pessoas e experiências diferentes. “Temos de lutar por livros feitos por humanos com tempo”, desafiou.

Apaixonado pela leitura, o ministro recordou o entusiasmo de Telmo Faria, antigo presidente da Câmara de Óbidos, com a criação do festival literário, e a transformação da vila na “capital dos livros”, reconhecida como Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, em 2015. E considerou o FÓLIO um “projeto de excelência”, a que deram continuidade os autarcas Humberto Marques e Filipe Daniel. “É um orgulho esta história estar a ser escrita há mais de uma década”, afirmou. “Obrigado por mostrarem a beleza dos livros.”

Livros podem transformar

Filipe Daniel, presidente do município, concordou que “há decisões que mudam a forma como um território se vê e como passa a ser visto”. “Hoje, o FÓLIO afirma-se como uma aposta diferenciadora, com reconhecimento nacional e internacional”, sublinhou, demonstrando que “fora dos grandes centros urbanos, se podem realizar feitos extraordinários”.

Este ano, a autarquia volta a atribuir vouchers de 20 euros a todos os alunos do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos para aquisição de livros no festival literário, uma medida que o autarca acredita ter um “potencial transformador”. “Quando o município coloca um livro ao alcance de todos os alunos, investe na igualdade de oportunidades e na liberdade de cada um para imaginar e construir o seu futuro”, sublinhou.

Destinado a todos, o FÓLIO teve interpretação em Língua Gestual Portuguesa na sessão inaugural, assim como sucederá nas 13 mesas de autores. Filipe Daniel esclareceu que o tema “Para além da pele” pretende “reconhecer a pessoa além da aparência, a história além do preconceito, e a complexidade além da resposta fácil”. “Um festival literário deve preservar o espaço de pensamento, de descoberta e de discordância respeitosa.”

FÓLIO enquanto espaço de “verdadeira liberdade intelectual”

Defensor da capacidade de escutar, compreender e aceitar a diferença para a “construção de sociedades livres e responsáveis”, Ricardo Duque, vereador da Cultura, quer que o FÓLIO seja um “espaço de verdadeira liberdade intelectual”, onde as ideias possam ser discutidas, questionadas e confrontadas. “Não procuramos unanimidades. Procuramos pensamento”, assegurou.

“Num tempo marcado por tanta violência, parar para escutar o outro pode ser um gesto de resistência. Prestar atenção e recusar a indiferença podem ser gestos radicais”, observou Joana Pinho, administradora da Ler Devagar e curadora do FÓLIO Mais. “E talvez seja essa uma das tarefas mais importantes da literatura: lembrar-nos de que o mundo não está terminado. Que aquilo que existe não é necessariamente aquilo que tem de existir.”

Incomodada por se estar a falar de livros, autores e encontros, enquanto “há pessoas a lutar pela sua casa, pela sua terra, pela sua liberdade, a fugir da guerra e que perderam tudo” e “há um genocídio em curso”, a filha de José Pinho, mentor do FÓLIO, questionou: “Que mundo estamos a escrever nas nossas peles de papel? Que histórias escolhemos guardar? Que vozes queremos fazer atravessar o tempo? Que mundo queremos deixar escrito?”

Galardão José Pinho

Em homenagem ao homem de visão, que deixou uma “marca profunda em Óbidos e um legado a preservar”, Ricardo Duque anunciou a criação do Galardão José Pinho, “destinado a distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma particularmente relevante para a literatura, a criação artística, o pensamento e a democratização do acesso à cultura”.

Zeferino Coelho será o primeiro a ser galardoado, no último dia do FÓLIO. “O seu percurso, profundamente ligado à afirmação de grandes autores portugueses, entre os quais José Saramago, representa um contributo extraordinário para a nossa vida literária”, justificou o vereador da Cultura. A cerimónia contará com a presença do Presidente da República, António José Seguro.

Convicto de que “a literatura pode constituir uma verdadeira política pública de desenvolvimento”, Ricardo Duque defendeu que “o acesso à cultura e ao conhecimento não deve depender da condição económica”, razão pela qual o FÓLIO tem entrada livre. “As obras mais importantes que uma comunidade deixa não são apenas as que se constroem de pedra. São também as que se constroem nas pessoas”, acrescentou. “É aí que a cultura encontra o seu maior valor e a política a sua mais nobre responsabilidade.”

Transformar o território

Pedro Rodrigues, presidente da Óbidos Criativa, lembrou que o FÓLIO “faz parte de uma estratégia cultural que Óbidos tem vindo a construir, não por tendência, não por imitação, mas pela convicção de que a literatura, a cultura e a criatividade podem, efetivamente, transformar um território”. E destacou a importância do Plano Estratégico Óbidos Cidade Criativa da Literatura 2025-2035 e a criação do Conselho Estratégico de Literatura e Conhecimento.

“É preciso pensar no conhecimento que produzimos e nos públicos que formamos”, comentou Pedro Rodrigues. “Nos diferentes espaços do FÓLIO encontramos pessoas que pensam de formas profundamente diferentes. E ainda bem”, afirmou. “A diversidade só é verdadeiramente riqueza quando não transformamos cada diferença numa divisão e cada discordância num antagonismo.”

“Esta reflexão profunda sobre o que nos une e nos separa ganha ainda mais força pelo espírito de cooperação que ergue este festival”, afirmou Maria Eduarda Marques, vice-presidente da Fundação INATEL, responsável pela curadoria FOLIA, parceira do FÓLIO desde 2016 e coorganizadora desde 2018. “Fomentamos a democratização no acesso à arte, garantimos uma maior coesão territorial, salvaguardamos o património cultural imaterial e apoiamos artistas emergentes”.

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