Óbidos reforça compromisso com uma infância mais livre e criativa

Cerca de 300 participantes, entre investigadores, educadores, professores, técnicos, decisores e profissionais da área da Educação, juntaram-se esta semana na Praça da Criatividade, para refletir sobre os desafios que as crianças enfrentam nas sociedades contemporâneas.

Naquele que foi o 1.º Seminário da Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar, foram debatidos temas como o risco e a autonomia, a criatividade, o espaço público, a imaginação, e a necessidade de devolver às crianças tempo e liberdade.

O encontro, acompanhado por outras 200 pessoas em streaming, contou com o Professor Doutor Carlos Neto como principal conferencista, um dos maiores especialistas mundiais no estudo da infância e da importância do brincar.

Para este professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa (UL), brincar é um compromisso sério e é para todos.

“Brincar é para todos. Não é só para as crianças”, afirmou, perante uma sala cheia e muito atenta a cada uma das suas palavras. “É preciso com urgência restaurar a construção de um ‘Homo Ludens’ [o jogo como elemento da cultura], numa sociedade em estado de crise e em transição. Estamos aprisionados. Vivemos a correr. Queremos tudo e não temos nada. Vivemos numa sociedade preconceituosa. Estamos no século da informação mas não da felicidade, pelo que nunca foi tão importante brincar”.

Na sua opinião, “brincar não é um luxo de infância”. É, antes, “um património da nossa espécie”. “Quando brincamos exercitamos a imaginação, ausentamo-nos da realidade. E é isso que as crianças fazem e que nós interrompemos. Brincar ensina-nos que o futuro é algo que podemos criar. Uma ferramenta ancestral de esperança”. Segundo defende, é preciso “criar mais oportunidades de brincar”.

“Brincar não é perder tempo. É criar tempo. Desintoxica. Livra-nos do que está a mais. Repara o desgaste e repõe o equilíbrio. Conquista gozo e alegria. É o melhor antidepressivo e ansiolítico que existe. É o remédio ideal” que merece “ser prescrito”, brincou o professor.

“Talvez o brincar deixe de ser apenas um direito das crianças e passe a ser uma missão civilizacional”. Na sua opinião, “uma humanidade que deixe de brincar corre o risco de voltar a construir Babel”.

“O brincar não é apenas uma ferramenta pedagógica ou biológica, psicológica e social, mas uma categoria antropológica, ética e espiritual”.

“Uma sociedade que apenas prepara crianças para o futuro corre o risco de lhes roubar o presente”

Na ocasião, Filipe Daniel, presidente da Câmara Municipal de Óbidos, sublinhou que este foi “um dos encontros mais importantes que o Município acolhe este ano”, considerando que o debate em torno do direito a brincar “nos obriga a refletir sobre o lugar que atribuímos à infância na construção das nossas comunidades”.

“A infância não é um intervalo da vida. Não é um corredor que conduz à idade adulta. É uma etapa completa da existência humana, com valor e direitos próprios. Uma sociedade que apenas prepara crianças para o futuro corre o risco de lhes roubar o presente”, afirmou.

Na sua intervenção, Filipe Daniel defendeu que o direito a brincar ultrapassa o universo da educação e deve ser entendido como uma responsabilidade coletiva, envolvendo também as políticas públicas, o urbanismo, a cultura, a mobilidade e a forma como os territórios são pensados.

“Os territórios educam. Educam através da forma como organizam o espaço público, da existência de lugares onde uma criança possa permanecer, correr, imaginar ou, simplesmente, observar. Uma cidade que oferece tempo, espaço e confiança às suas crianças está, na realidade, a construir melhores condições para todos”.

O autarca destacou ainda o percurso desenvolvido por Óbidos na afirmação da educação como eixo estruturante do desenvolvimento local, referindo projetos como o Crescer Melhor, a Fábrica da Criatividade, o MyMachine, o Óbidos Anima ou as residências pedagógicas, bem como a articulação entre cultura, educação, património, tecnologia e espaço público.

“Em Óbidos nunca entendemos a Educação como uma competência administrativa. Entendemo-la como um princípio organizador do território. Não como um serviço, mas como uma forma de pensar a comunidade”.

Na reta final da sua intervenção, Filipe Daniel deixou um apelo para que as políticas públicas continuem a colocar as crianças no centro das decisões.

“Proteger a infância nunca poderá significar apenas protegê-la dos perigos. Tem de significar também protegê-la da indiferença. Uma criança que brinca não está a desperdiçar tempo. Está a aprender a confiar, a imaginar, a cooperar e a descobrir quem é”.

O seminário integrou ainda o lançamento do livro “Resta-nos Brincar!”, da autoria de Carlos Neto, sessões paralelas de trabalho dedicadas a diferentes dimensões da infância, e uma conferência de encerramento conduzida pelo educador Rui Inácio.

Com esta iniciativa, Óbidos reforça a sua estratégia de afirmação como território educativo, onde cultura, criatividade, conhecimento e participação cívica convergem numa visão integrada de desenvolvimento, colocando a infância e o direito a brincar no centro das políticas públicas.

De acrescentar que o 1.º Seminário da Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar foi promovido pela Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar (IPA Portugal), em parceria com o Município de Óbidos.

Other Articles